O saguão das pessoas que eu não gosto
Uma festa ao ar livre. Ou quase. Era o saguão de um prédio. O andar térreo rodeado de pilotis com um único cômodo, em que estava instalado o elevador do prédio.
Eu tento colocar uma música para animar o ambiente, mas parece que o aparelho já está programado para uma musiquinha de dentista, que deixa aquela luz da manhã ainda mais bucólica.
São muitas pessoas sentadas por todos os lados, conversando com certa animação. De repente eu me dou conta de que são todas as pessoas de quem eu não gosto. Pessoas de muitos períodos da minha vida. Desentendimentos de todas as espécies, daquele tipo sem retorno, sem chance de reconciliação.
Dou dois passos para trás e quase caio em cima de um grupo que está sentado no chão conversando animadamente. De cara vejo uma colega do magistério. Ela me parece igual à última vez que a vi, com aquele penteado ridículo que fez depois que começou a namorar aquele açougueiro.
Nos tempos do magistério andávamos três coladas, as três cabeludas. Com os cabelos cacheados sem pentear, falávamos de revolução e de montar uma república juntas. De repente ela aparece com uma escova no cabelo, que agora tinha um corte todo repicado. Fora as roupas de senhora, um conjuntinho de viscose estampada. E isso com menos de dezoito anos de idade! Isso tudo nos atropelou e nunca mais falei com ela.
Reencontrar pessoas nesta festa acaba me deixando angustiada. Me distancio vou para trás da única parede escondida do saguão e encontro, sozinha, a pessoa mais irritante que já conheci. Está sozinha sentada no chão, parece que está imobilizada de alguma forma que não identifico.
A conheci no estrangeiro, na segunda vez que estive por lá. Acabei namorando um de seus ex-namorados e ela nunca se conformou com isso. Na verdade ela nunca dirigiu a palavra a mim, nunca ouvi ela dizendo o meu nome em todo esse tempo. Mas, imóvel naquele canto, ela me chamou diversas vezes, pedindo para eu me sentar com ela. Eu apenas continuei andando.
Sigo em frente e descubro um quarto que eu ainda não tinha visto. Um quarto escuro, em que estava o metido a oriental do estrangeiro. Ele me chama com vigor para ir a seu encontro, mas alguém que estava caminhando comigo me segura e diz para eu ter cuidado. Neste momento percebo que não há piso onde o pseudo-japonês está. Ele está sentado em uma poltrona colada à parede e assiste televisão naquele quarto escuro. No que deveria ser o chão, uma fossa cheia de lama mal cheirosa escorrendo por debaixo do saguão.
Decido que devo ir embora. Aquela música me irrita bastante. E toda aquela gente. Por que será que se reuniram todos de uma única vez? Um rapaz me aborda para discutir filosofia, não há momento mais inoportuno que esse. Fala num tom autoritário, querendo provar que estou errada em algo que não entendo. Talvez por não prestar tanta atenção quanto ele gostaria que eu prestasse.
Só penso em sair dali, quando estou quase saindo do saguão alguém me segura pelo braço.
- Mãe?
(texto antigo, resgatado de um blog de sonhos que não vingou)
Eu tento colocar uma música para animar o ambiente, mas parece que o aparelho já está programado para uma musiquinha de dentista, que deixa aquela luz da manhã ainda mais bucólica.
São muitas pessoas sentadas por todos os lados, conversando com certa animação. De repente eu me dou conta de que são todas as pessoas de quem eu não gosto. Pessoas de muitos períodos da minha vida. Desentendimentos de todas as espécies, daquele tipo sem retorno, sem chance de reconciliação.
Dou dois passos para trás e quase caio em cima de um grupo que está sentado no chão conversando animadamente. De cara vejo uma colega do magistério. Ela me parece igual à última vez que a vi, com aquele penteado ridículo que fez depois que começou a namorar aquele açougueiro.
Nos tempos do magistério andávamos três coladas, as três cabeludas. Com os cabelos cacheados sem pentear, falávamos de revolução e de montar uma república juntas. De repente ela aparece com uma escova no cabelo, que agora tinha um corte todo repicado. Fora as roupas de senhora, um conjuntinho de viscose estampada. E isso com menos de dezoito anos de idade! Isso tudo nos atropelou e nunca mais falei com ela.
Reencontrar pessoas nesta festa acaba me deixando angustiada. Me distancio vou para trás da única parede escondida do saguão e encontro, sozinha, a pessoa mais irritante que já conheci. Está sozinha sentada no chão, parece que está imobilizada de alguma forma que não identifico.
A conheci no estrangeiro, na segunda vez que estive por lá. Acabei namorando um de seus ex-namorados e ela nunca se conformou com isso. Na verdade ela nunca dirigiu a palavra a mim, nunca ouvi ela dizendo o meu nome em todo esse tempo. Mas, imóvel naquele canto, ela me chamou diversas vezes, pedindo para eu me sentar com ela. Eu apenas continuei andando.
Sigo em frente e descubro um quarto que eu ainda não tinha visto. Um quarto escuro, em que estava o metido a oriental do estrangeiro. Ele me chama com vigor para ir a seu encontro, mas alguém que estava caminhando comigo me segura e diz para eu ter cuidado. Neste momento percebo que não há piso onde o pseudo-japonês está. Ele está sentado em uma poltrona colada à parede e assiste televisão naquele quarto escuro. No que deveria ser o chão, uma fossa cheia de lama mal cheirosa escorrendo por debaixo do saguão.
Decido que devo ir embora. Aquela música me irrita bastante. E toda aquela gente. Por que será que se reuniram todos de uma única vez? Um rapaz me aborda para discutir filosofia, não há momento mais inoportuno que esse. Fala num tom autoritário, querendo provar que estou errada em algo que não entendo. Talvez por não prestar tanta atenção quanto ele gostaria que eu prestasse.
Só penso em sair dali, quando estou quase saindo do saguão alguém me segura pelo braço.
- Mãe?
(texto antigo, resgatado de um blog de sonhos que não vingou)
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