Elogio ao erro

A despeito do que eu queria que fosse, num passado nem tão remoto assim, a vida segue seu rumo sem aceitar palpites. Faço planos sempre, mas os de que mais gosto são aqueles que dão errado. Eu não sou capaz de antecipar a grandeza do que a vida pode preparar, por isso meus planos são sempre, no máximo, um rascunho do que pode ser.
Muitas vezes o possível se faz assim, de surpresa. Mas é preciso não esperar. Não se achar talentoso demais, nem se menosprezar. É preciso não se levar a sério e perder o medo do erro. O erro é fundamental. A vida sem erro é asseptica. A assepsia é uma coisa branca, que tem aroma de éter e que se estende num corredor monótono até se perder na linha do horizonte. Nesse corredor, só é possível seguir em frente, em linha reta e na horizontal. Ou ficar parado, o que, na verdade, não faz muita diferença, porque, por mais que se ande, estará sempre no mesmo lugar, com a mesma perspectiva.
Uma vida sem erros, também é uma vida sem acertos, é continuar onde já se está por todo o sempre e onde se permanecerá quando o sempre findar. Isso nem pode ser chamado de morte, mas de não vida, ausência dela. Um não-vivo pode também ser um não-morto, um zumbi, que anda sem objetivo, bem devagar, em linha reta. Um zumbi não erra, porque ele não quer nada, porque nem tenta. Ele apenas está, ele não é porque não quer, porque não tem querer. O não-vivo-não-morto-zumbi vai, ele segue a maré dos seus pares para um lugar que ele não sabe qual é, nem quer saber, só segue a multidão, porque zumbi que é zumbi nunca está só, mas também não está acompanhado, já que ele não se relaciona com os outros. Isso é bom, mantém o estado asséptico-inequívoco das coisas. Deve ser bom ser zumbi e não ter opinião, desejo, objetivo que se expresse. Bastar ir. Deve ser morno e branco, com um aroma de éter, num corredor infinito.
Mas o que eu gosto mesmo é do erro e do poder ser, que dói, mas pelo menos é de verdade.

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