Não estou lá
Fui assistir ontem o que foi chamado por alguns jornais de filme biografia de Bob Dylan. I’m not there, ou Não estou lá, em português, não é exatamente o que se espera de uma biografia. Não conta uma história com começo, meio e fim, muito menos situa quem não conhece a carreira do músico com alguma profundidade sobre o que é reconstituição de época ou apenas livre inspiração.
Bob Dylan mesmo só aparece na última cena do filme, tocando gaita, pouco antes de subir os créditos. Nem o nome dele é citado durante o filme. Mas sua vida está lá, toda em pedaços, e ele é interpretado por Cate Blanchett, quando aparece como Jude Quinn, por Ben Whishaw, quando é Arthur Rimbaud, por Christian Bale, com o nome de Jack Rollins, por Richard Gere, quando se torna Billy the Kid, por Marcus Carl Franklin, como um pequeno Woody Guthrie, e por Heath Ledger, que atende por Robbie Clark.
Cada um desses personagens são inspirados em trechos de sua vida, ou de seu pensamento. Não sou grande conhecedora da vida de Bob Dylan, mas meu acompanhante era e disse que estava tudo lá, cada trechinho da vida dele.
Percebi hoje que já não sou mais tão boa em guardar nomes de diretores de cinema. Explico porquê: a mesma sensação que meu acompanhante me descreveu ao ver Não estou lá, eu tive quando vi Velvet Goldmine, que apresenta cada pedacinho da vida de David Bowie, sem citar o nome do cantor nem uma vez, tá, uma vez, o título do filme é de uma música dele. Aliás muito do filme que vi ontem me lembrou Velvet Goldmine e isso não é à toa, Todd Haynes é diretor dos dois filmes, só vi isso hoje.
Apesar de não aprender muito sobre a vida de Bob Dylan, o filme me deliciou com suas impressões do mundo, interpretadas pelo cineasta. Isso já é motivo bastante para assistir. Em um dos trechos, quando Cate Blanchett entra em cena, o músico é interrogado por um batalhão de jornalistas por ter se tornado traidor da "causa folk", quando passa a usar guitarra elétrica. Ele responde que não é possível transferir a uma música a responsabilidade de mudar o mundo.
No Brasil tivemos caso parecido, quando o Caetano foi vaiado no TUCA por universitários panfletários ("Vocês não estão entendendo nada!") e Chico Buarque chegou a dar declaração semelhante à do Bob Dylan nesse tempo.
Existe sempre um grupo que se auto-atribui como revolucionário, mas que não faz nada além de eleger pessoas como porta-vozes da causa. Esses "revolucionários" atribuem significado à obra do outro e exigem do autor coerência com o significado atribuído, caso contrário a causa deles não terá mais sentido. Quer dizer, eu digo que a obra do artista é que vai mudar o mundo e se essa não for a intenção do cara, meu mundo caiu!
Falar sobre a "causa folk", ou sobre canções de protesto, não faz do cara um militante. Eu lembrei de Heidegger que diz que saber o conceito de uma coisa não é saber a coisa. O personagem diz que "folk é apenas uma palavra que eu não uso mais", porque já não serve ao que ele pretende.
O filme me fez pensar sobre essas coisas, sobre o fulano que vai na exposição do Sebastião Salgado e acha que está mudando o mundo. Vai ver é essa mesma a lição que Dylan quis passar todo o tempo. Faça você a sua parte, eu vou tentar fazer a minha.
Bob Dylan mesmo só aparece na última cena do filme, tocando gaita, pouco antes de subir os créditos. Nem o nome dele é citado durante o filme. Mas sua vida está lá, toda em pedaços, e ele é interpretado por Cate Blanchett, quando aparece como Jude Quinn, por Ben Whishaw, quando é Arthur Rimbaud, por Christian Bale, com o nome de Jack Rollins, por Richard Gere, quando se torna Billy the Kid, por Marcus Carl Franklin, como um pequeno Woody Guthrie, e por Heath Ledger, que atende por Robbie Clark.
Cada um desses personagens são inspirados em trechos de sua vida, ou de seu pensamento. Não sou grande conhecedora da vida de Bob Dylan, mas meu acompanhante era e disse que estava tudo lá, cada trechinho da vida dele.
Percebi hoje que já não sou mais tão boa em guardar nomes de diretores de cinema. Explico porquê: a mesma sensação que meu acompanhante me descreveu ao ver Não estou lá, eu tive quando vi Velvet Goldmine, que apresenta cada pedacinho da vida de David Bowie, sem citar o nome do cantor nem uma vez, tá, uma vez, o título do filme é de uma música dele. Aliás muito do filme que vi ontem me lembrou Velvet Goldmine e isso não é à toa, Todd Haynes é diretor dos dois filmes, só vi isso hoje.
Apesar de não aprender muito sobre a vida de Bob Dylan, o filme me deliciou com suas impressões do mundo, interpretadas pelo cineasta. Isso já é motivo bastante para assistir. Em um dos trechos, quando Cate Blanchett entra em cena, o músico é interrogado por um batalhão de jornalistas por ter se tornado traidor da "causa folk", quando passa a usar guitarra elétrica. Ele responde que não é possível transferir a uma música a responsabilidade de mudar o mundo.
No Brasil tivemos caso parecido, quando o Caetano foi vaiado no TUCA por universitários panfletários ("Vocês não estão entendendo nada!") e Chico Buarque chegou a dar declaração semelhante à do Bob Dylan nesse tempo.
Existe sempre um grupo que se auto-atribui como revolucionário, mas que não faz nada além de eleger pessoas como porta-vozes da causa. Esses "revolucionários" atribuem significado à obra do outro e exigem do autor coerência com o significado atribuído, caso contrário a causa deles não terá mais sentido. Quer dizer, eu digo que a obra do artista é que vai mudar o mundo e se essa não for a intenção do cara, meu mundo caiu!
Falar sobre a "causa folk", ou sobre canções de protesto, não faz do cara um militante. Eu lembrei de Heidegger que diz que saber o conceito de uma coisa não é saber a coisa. O personagem diz que "folk é apenas uma palavra que eu não uso mais", porque já não serve ao que ele pretende.
O filme me fez pensar sobre essas coisas, sobre o fulano que vai na exposição do Sebastião Salgado e acha que está mudando o mundo. Vai ver é essa mesma a lição que Dylan quis passar todo o tempo. Faça você a sua parte, eu vou tentar fazer a minha.
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