Vontade de dizer de novo a mesma coisa
O que você vai ser quando crescer?*
Essa é uma pergunta que toda criança tem que responder pelo menos uma vez na vida e eu não pensava no futuro tanto assim para ter uma resposta real para fornecer quando consultada.
Lembro que meus parentes sempre perguntavam, naquelas irritantes reuniões do tipo "o meu é melhor que o seu". Eu sempre dizia que queria ser professora. Era a profissão da minha mãe e era o mais fácil a se dizer, além de fazer aquele agrado em casa. Só que eu nunca pensei nisso de verdade.
Numa das vezes que me perguntaram, foi um daqueles tios com mania de doença, que me deprimiam o domingo, que tinha começado, invariavelmente, com uma visita ao cemitério da Vila Formosa, o maior da América Latina, respondi novamente o de sempre, mas pensei algo totalmente diferente.
Eu era tímida, ou intimidada, e adorava pessoas que se expressavam livremente. Eu sou de um tempo em que criança não podia falar palavrão sem levar uma lição de moral demorada. Bem, no dia em que esse meu tio decidiu perguntar pela quinquagésima vez eu pensei: eu quero ser prostituta ou lésbica.
Devia ter uns cinco anos na época, tinha acabado de aprender a ler. Nem sabia o que era uma prostituta ou uma lésbica, mas entendia perfeitamente o impacto que isso teria na minha família. Eram palavras faladas baixinho, de canto de boca. O suficiente para eu gostar e a idéia permanecer firme na minha cabeça.
Nunca levei a cabo minha decisão precoce, mas fui capaz de causar os escândalos que ela carregava.
*texto publicado no (documenta), em janeiro
Essa é uma pergunta que toda criança tem que responder pelo menos uma vez na vida e eu não pensava no futuro tanto assim para ter uma resposta real para fornecer quando consultada.
Lembro que meus parentes sempre perguntavam, naquelas irritantes reuniões do tipo "o meu é melhor que o seu". Eu sempre dizia que queria ser professora. Era a profissão da minha mãe e era o mais fácil a se dizer, além de fazer aquele agrado em casa. Só que eu nunca pensei nisso de verdade.
Numa das vezes que me perguntaram, foi um daqueles tios com mania de doença, que me deprimiam o domingo, que tinha começado, invariavelmente, com uma visita ao cemitério da Vila Formosa, o maior da América Latina, respondi novamente o de sempre, mas pensei algo totalmente diferente.
Eu era tímida, ou intimidada, e adorava pessoas que se expressavam livremente. Eu sou de um tempo em que criança não podia falar palavrão sem levar uma lição de moral demorada. Bem, no dia em que esse meu tio decidiu perguntar pela quinquagésima vez eu pensei: eu quero ser prostituta ou lésbica.
Devia ter uns cinco anos na época, tinha acabado de aprender a ler. Nem sabia o que era uma prostituta ou uma lésbica, mas entendia perfeitamente o impacto que isso teria na minha família. Eram palavras faladas baixinho, de canto de boca. O suficiente para eu gostar e a idéia permanecer firme na minha cabeça.
Nunca levei a cabo minha decisão precoce, mas fui capaz de causar os escândalos que ela carregava.
*texto publicado no (documenta), em janeiro
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