Vovó
Ser amada foi sempre um desafio para mim.
Fui ensinada que, para ser amada, eu tenho que atender às expectativas
de quem ama. Ser obediente, gentil. Se não, não era digna de amor.
Foram muitos episódios de violência em casa que deixaram claro que eu
não era merecedora de amor “agindo desse jeito”.
Cresci assim,
carente, buscando aceitação e me adaptando a tudo o que os outros
queriam de mim. A melhor fase das relações era sempre quando estava
tudo muito bem para o outro e eu morrendo por dentro. Era nesse momento
que eu era digna de amor.
A primeira pessoa a não pedir nada, a
não perguntar nada, a estar comigo inteira e gostar de mim do jeito que
eu sou, foi a minha avó. Nós tínhamos esse mundo só nosso, de falar
só da gente, e foi aí que entendi que amor é outra coisa, já eu
adulta.
Hoje, experimento essa outra modalidade livre de amor, de
quem cresce olhando para mim e admirando cada detalhe meu, até o que o
incomoda, e dizendo que eu valho muito à pena. Quando fico mal, e vem
aquele velho sentimento de que não mereço afeto porque não estou
sendo boazinha, ele vem e diz que vai esperar eu melhorar. Eu importo.
Isso
tem contaminado todas as minhas relações. Eu tenho necessidades e
limites. Não posso atender a todas as demandas e tenho as minhas
próprias. Eu sempre fui esse lugar confortável, sem cobranças, quero
continuar sendo, desde que eu também não seja exigida para além do
que posso ou quero dar em cada momento. Reciprocidade em tudo. Cuidemos
uns dos outros como queremos ser cuidados.
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Na foto, dona Mariquinha, provavelmente na última vez que nos vimos

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