Abandono

Sirenes em toda a parte agora. Ouço aqui do andar mais alto da Casa do Povo, é assim que chamam esse prédio cravado no centro da capital do país. As autoridades estão atrás das lideranças dos povos indígenas que vieram para cá tentar impedir que o pouco que resta do que foi usurpado deles durante os quinhentos anos que esse país existe como tal passe para a mão de gente que já tem muito, mas não cansa de querer mais.
Um governo que se diz do povo, mas que não se reúne com a lideranças dos povos ancestrais para nada além de tirar umas fotinhos e dizer que eles reclamam muito.

Mais cedo vim à pé, ao lado deles, porque fecharam o trecho na esplanada. Uma mulher puxava uma canção nativa e os outros todos respondiam. Ela tão linda, com uma tornozeleira e um bracelete amarelos bem vibrantes e uma criança pequena pendurada no colo por um tecido.
Meu coração apertou pelo desprezo com nossa cultura tão rica, pela escolha de um modelo que privilegia os já privilegiados. Dói estar no meio de tanta ignorância com tanta sabedoria disponível. Dói tanto abandono.




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