Relações horizontais que na verdade são verticais

Somos tão acostumados com o status quo que naturalizamos as relações sociais como elas costumam se apresentar nas nossas vidas. O que isso quer dizer? Que achamos normal algumas pessoas serem mais importantes que as outras, o que quer que isso queira dizer.
No mundo, tudo se apresenta como se fosse natural que alguém tivesse mais poder e outros menos poder. Simples assim.
Daí um grupo de lunáticos (pensadores são sempre de outro planeta, né?) decide questionar o estado das coisas e pensa os indivíduos, cada um deles, como alguém tão importante e relevante para o mundo como qualquer outro. Não estou aqui falando de um grupo específico, mas de vários que tratam desse assunto: filósofos, humanistas, socialistas, anarquistas e por aí vai.

O que vem a seguir? Questionamos o estado das coisas, dizemos que somos contra a "exploração do homem pelo homem" e montamos grupos independentes de (preencha aqui com o que quiser). Temos a ideia, chamamos amigos, conhecidos para fazer parte do grupo, que é basicamente um grupo de parceiros que vão trocar suas habilidades em (preencha aqui com o que quiser) para fazer algo em comum e fora das condições estabelecidas pelo mercado.
Uma nova forma de organização, como essa se propõe, a partir de parcerias, deve se estruturar horizontalmente. E ser horizontal é o que exatamente? Todos os que fazem parte têm o mesmo poder de decisão e de ação, independente de quando entraram ou porque entraram no grupo. E é aí que começa a confusão.
Uns conhecidos me chamaram para participar de um projeto que eu achei muito interessante. Aceitei o convite e tinha muitas ideias para fazer a coisa ir para frente (fui chamada porque a coisa corria o risco de não ser feita). Expus minhas ideias e qual foi a minha surpresa? "Nós já sabemos o que queremos fazer, te chamamos para ajudar". Ou seja, os mais antigos no grupo estavam alguns degraus acima de mim no poder de decisão.
Mas se eu fui convidada para ser parceira, parte do grupo, por que não teria as mesmas condições de expor minhas ideias sobre o assunto e elas serem consideradas como as dos mais antigos no projeto? Porque o natural é todo mundo entender que quem teve a ideia é dono dela (no mercado isso se chama direito autoral), não importa se essa pessoa só teve uma ideia interessante e não fez mais nada além disso e outros farão mais esforço que ela para colocar a coisa em prática.

Como se costuma dizer, de boas intenções o inferno está cheio. É preciso estar muito alerta, ter autocrítica e menos egolatria para fugir do status quo. Difícil, sim, mas não impossível.

Comentários

Postagens mais visitadas