A violência nossa de todo dia

Nunca tive uma relação muito boa com as autoridades institucionais. Só para lembrar, eu tinha dez anos quando acabou a ditadura mais recente no Brasil. A coisa começou neste período.

Lembro que muitas vezes, quando eu era bem pequena, eu perguntava algumas coisas para minha mãe sobre o que eu ouvia na rua sobre política. A resposta era sempre um sshhhhh e um deixa de bobagem, menina, que eu nunca entendia.

Para situar: eu nasci em Parelheiros, bairro afastado da zona sul de São Paulo. Um subúrbio operário habitado basicamente por metalúrgicos. Era o início dos anos oitenta, exatamente quando o movimento sindical eclodiu na cidade, além de ser a época do nascimento do PT, e eu estava vivendo no olho do furacão.

Daí, qualquer comentário político dentro de casa podia estar sendo monitorado por vizinhos, ou pela própria polícia. Essa é uma sensação que não te abandona no meio de um regime de exceção.

Minha primeira escola era estadual recém inaugurada, no governo Maluf. Lembro bem da placa de fundação da escola na porta. Minha professora, dona Orminda, era brutal no trato com os alunos. Tacava apagador, daqueles de madeira, pesadões, na cabeça dos que conversavam e adorava dar uns puxões de cabelo para levantar a meninada da cadeira. Um dia, na fila do hino nacional, que tínhamos que cantar todo o dia antes de começar a aula, a professora chegou perto de mim, deu uma cheirada e me jogou no chão. “Aqui não é lugar para ficar perfumada”. Isso na frente da minha mãe, que não podia fazer nada, pois era um tempo pré-estatuto da criança e do adolescente. Detalhe: eu tinha seis anos.


Daí acabou a ditadura.

Só que a mentalidade militar continou lá, firmona. E ainda hoje...

Um dia estava chegando em casa da escola e vi um camburão parado no meio da rua dando um baculejo em dois amiguinhos meus. Nós tínhamos uns onze anos e os dois meninos estavam só de shortinho, daqueles de nylon minúsculos que se usava muito nos anos 80. Os dois PMs estavam cada um com uma metralhadora na mão mirando nos pequenos que estavam na calçada. Não tive dúvida, num acesso de ódio, e passei entre os meninos e os policiais. Revolta que eu não podia demonstrar de outra forma, se não eu podia acabar no porta mala e depois numa vala qualquer, como sabíamos que acontecia com frequência por ali. Eu passei o fim da infância e a adolescência toda com medo de perder um dos meus amigos desse jeito.

Entrei, naquele tempo, num movimento de juventude muito politizado. Nós estudávamos política, claro, cultura e o que viesse. Uma amiga minha brinca que eu fui alfabetizada com o manifesto do partido comunista.

Era o início do governo Collor e em toda a cidade estavam rolando manifestações em universidades. Fui acompanhar a que acontecia perto da minha casa com os meus amigos. Acho que foi o dia em que senti mais medo até aquele momento da minha vida. Na hora que cheguei no campus, vi várias câmeras fotográficas pilotadas por policiais apontadas para mim. Pois é, faço parte do registro de subversivos da cidade. Rolou violência pesada na sequência.

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Já não moro em São Paulo, mas leio sobre essa violência institucional contra os seus moradores, principalmente os da periferia, quase todos os dias. A política de defender o estado dos seus cidadãos. A sensação dessa violência fica entranhada na gente, que tem que lembrar todos os dias que não somos inferiores, que temos os mesmos direitos, que isso é um abuso, um crime.

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