Sobre marchas

Marchas e manifestações de estudantes estão chamando a atenção após o caso da Marcha da Maconha, que foi duramente reprimida em São Paulo e que acabou gerando uma decisão do STF garantindo o direito a mobilização nas ruas para defesa de mudanças de políticas públicas.

Como disse num post mais abaixo, minha impressão é que a Marcha da Liberdade acabou virando uma tentativa de manifestação do hippismo do novo milênio, assumidamente sem ideologia (como se isso fosse possível), pelo menos de acordo com as lideranças dos grupos que tomaram para si a organização do "movimento". Um texto publicado pelo coletivo Passa Palavra, A esquerda fora do eixo, questiona o papel do coletivo Fora do Eixo na mobilização da juventude e cita trecho de um entrevista de Alexandre Youssef, em que ele afirma que "o Fora do Eixo cria, portanto, uma geração que se utiliza sem a menor preocupação ideológica de aspectos positivos da organização dos movimentos de esquerda e de ações de marketing típicas dos liberais. É, como disse o teórico da contracultura Cláudio Prado, a construção da geração pós-rancor, que não fica presa à questões filosóficas e mergulha radicalmente na utilização da cultura digital para fazer o que tem que ser feito.” e concluem que no fundo essas lideranças "podem utilizar os meios militantes e ativistas para ampliar sua influência política e até para expandir seu mercado consumidor de cultura independente, mas não deixarão de ser o que são – uma classe de gestores que visa renovar a burocracia".


Um outro texto sobre o assunto foi publicado por Elton Flaubert, que fala bastante sobre a chamada geração "pós-rancor" propagada pelo coletivo FdE, Lutas Sociais e Fetichismo: notas sobre o debate iniciado pelo Passa Palavra (I): "O pós-rancor para isso abdica da memória. Os choques do mundo moderno enfraqueceram a experiência, ficamos ricos em informação, e pobres em conhecimento. A perda da experiência e da memória transforma o homem em autômato. Destituído de toda sabedoria, é incapaz de contar, analisar, dar conselhos, aprender com o tempo. A experiência, para eles, é rancorosa. O pós-rancor é o não filisteu, filisteu".


Elton analisa especificamente o texto do coletivo Passa Palavra e conclui: "Resumindo, o Passa Palavra acerta na análise: ao mostrar como grande parte da “cultura independente” e das ações de grupos empreendedores do open business está dentro da lógica de funcionamento do capitalismo; assim como, quando aponta os limites: das manifestações e marchas, da “cultura digital”, das novas tecnologias, da falta de sintonia com o cotidiano e anseios das classes mais pobres. E principalmente, quando expõe as motivações contrários ao FdE e parte da cultura “independente” e “alternativa”, sem entrar na lógica imediatista de achar “companheirismos” – sem o menor caráter reflexivo – em causas e movimentos, por parecerem, terem a imagem – por que não, a marca – de “alternativos”. Mas, erra na falta de mediações, não enxergando as possibilidades".

Recomendo a leitura dos dois textos e do debate que eles geraram nos comentários a quem se interessa em aprofundar o assunto.


UPDATE: Também seria interessante ler o trecho de O Capital (aquele clássico), especificamente a Secção 4 - O Fetichismo da Mercadoria e o Seu Segredo.

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