John, Yoko, revolução e machismo
Meu encantamento por Yoko Ono é bem recente, com o novo disco da Yoko Ono Plastic Ono Band, que fiquei ouvindo meses seguidos, maravilhada. Este disco nada me lembra daquela participação estranhíssima que ela fez no Rock'n Roll Circus, dos Stones.
E isso foi só o começo. Quando assisti Os EUA contra John Lennon, o documentário, eu entendi de verdade o seu papel na história da cultura pop.
Sempre rolou uma identificação com Yoko, porque já, mais de uma vez, eu fui apontada como uma desagregadora de grupo, por “fazer a cabeça” do meu namorado contra whatever. Bem, quem conhece as pessoas com quem eu estou/estive sabe bem que não é tão fácil fazer a cabeça assim. Com a Yoko se passa o mesmo.
Vamos ao documentário. O filme começa com um grande show feito para libertar um ativista político preso pelo governo Nixxon por... fumar maconha. O evento reuniu milhares de pessoas numa vigília para arrecadar fundos e ajudar a libertar John Sinclair e contou com a participação de John e Yoko.
Esse é apenas um gancho para fazer um histórico bastante amplo das ações políticas de John Lennon, principalmente fora dos Beatles e nos Estados Unidos.
Vários ativistas políticos, membros dos Panteras Negras, ex-senadores, Gore Vidal, o autor de Nascido em 4 de Julho, Noam Chomsky, entre outros, dão depoimentos sobre a trajetória de John como ativista político atuante, o que aconteceu efetivamente após se aproximar de Yoko Ono. Um dos entrevistados diz que “quando John conheceu Yoko ele completou a sua voz”.
John se refere a Yoko como uma mulher diferente das que tinha se relacionado: “sempre tive o sonho de conhecer uma artista que se apaixonasse por tudo isso. Dei-me conta que ela sabia o mesmo que eu, talvez mais, e isso vinha da cabeça de uma mulher. Isso me deixou boquiaberto”.
Yoko já era conhecida pelo seu trabalho com performances. Goste ou não delas, ela já tinha uma voz e não foi apenas o suporte de uma estrela, “a mulher atrás do grande homem”, ela foi colocada em primeiro plano, o que parece incomodar profundamente e não tem absolutamente nada a ver com seu trabalho ser bom ou não.
Uma mulher que tem opiniões fortes o suficiente para influenciar um Beatle.
Ainda nos Beatles, John ficou conhecido por questionar a importância exagerada que se dava a um pop star. O episódio em que ele falou que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo é um bom exemplo e foi citado no documentário. Principalmente o impacto entre cristãos fundamentalistas, que mandaram fazer fogueiras com os discos do quarteto. Aparece, inclusive, um membro da Ku Klux Kan tecendo severas críticas. Sem comentários.
E John, em vários momentos, fala de maneira amargurada da sua vida de Beatle. A sério, não deve ser nada fácil ser uma estrela internacional, principalmente começando tão jovem. Ainda pior se você tem que manter uma imagem pop todo o tempo. Não é de espantar que se queira romper com isso ao amadurecer, parece que foi esse o esforço de John, que se concretizou ao encontrar Yoko.
Uma companheira não é uma fã. Uma fã quer viver à beira da fama e gosta do ídolo, não da pessoa. Uma companheira quer ver o amado feliz. Preciso explicar em detalhes?
Quem execra Yoko normalmente o faz porque ela acabou com os Beatles. Ok...
O documentário dá grande destaque para a participação de John e Yoko no ativismo pelo fim da guerra do Vietnam, com cenas do movimento de milhares de pessoas em Washington cantando “All we are saying is give peace a chance”, de John. Também é citada a genial campanha patrocinada com seu dinheiro de pop star (que tinha servir para algo) que espalhou cartazes em todo o mundo com os dizeres “War is over, if you want it”.
O casal foi severamente perseguido pelo governo Nixxon, que não conseguiu extraditá-los, afinal, e fica no ar a possibilidade de ser sua militância a causa da morte de John, pelo menos para mim. Muitas interpretações possíveis, mas um registro muito bem feito deste tempo na vida do casal.
Sobre o papel da mulher na cultura pop, posso dizer que, no tempo em que tenho estado próxima da cena indie, seja na música, quadrinho, ou cinema, tenho visto um pequeno número de mulheres (no quadrinho, esse número é mínimo) e quase sempre em papéis de assessoria, produção e afins, quase nunca assinando trabalhos como autoras, diretoras, ou como front (wo)man. O plano secundário é o papel em que muitas de nós nos colocamos para nos encaixar, ou agradar, porque ninguém quer ser tratada como uma Yoko da vida. Mas se ninguém fizer isso, ainda precisaremos de leis como a Maria da Penha por muito tempo ainda.
...
Um gostinho do documentário, para quem ficou com vontade:
...
UPDATE: Woman Is the Nigger of the World (esta é a opinião de John Lennon sobre o que falei por aqui)
E isso foi só o começo. Quando assisti Os EUA contra John Lennon, o documentário, eu entendi de verdade o seu papel na história da cultura pop.
Sempre rolou uma identificação com Yoko, porque já, mais de uma vez, eu fui apontada como uma desagregadora de grupo, por “fazer a cabeça” do meu namorado contra whatever. Bem, quem conhece as pessoas com quem eu estou/estive sabe bem que não é tão fácil fazer a cabeça assim. Com a Yoko se passa o mesmo.
Vamos ao documentário. O filme começa com um grande show feito para libertar um ativista político preso pelo governo Nixxon por... fumar maconha. O evento reuniu milhares de pessoas numa vigília para arrecadar fundos e ajudar a libertar John Sinclair e contou com a participação de John e Yoko.
Esse é apenas um gancho para fazer um histórico bastante amplo das ações políticas de John Lennon, principalmente fora dos Beatles e nos Estados Unidos.
Vários ativistas políticos, membros dos Panteras Negras, ex-senadores, Gore Vidal, o autor de Nascido em 4 de Julho, Noam Chomsky, entre outros, dão depoimentos sobre a trajetória de John como ativista político atuante, o que aconteceu efetivamente após se aproximar de Yoko Ono. Um dos entrevistados diz que “quando John conheceu Yoko ele completou a sua voz”.
John se refere a Yoko como uma mulher diferente das que tinha se relacionado: “sempre tive o sonho de conhecer uma artista que se apaixonasse por tudo isso. Dei-me conta que ela sabia o mesmo que eu, talvez mais, e isso vinha da cabeça de uma mulher. Isso me deixou boquiaberto”.
Yoko já era conhecida pelo seu trabalho com performances. Goste ou não delas, ela já tinha uma voz e não foi apenas o suporte de uma estrela, “a mulher atrás do grande homem”, ela foi colocada em primeiro plano, o que parece incomodar profundamente e não tem absolutamente nada a ver com seu trabalho ser bom ou não.
Uma mulher que tem opiniões fortes o suficiente para influenciar um Beatle.
Ainda nos Beatles, John ficou conhecido por questionar a importância exagerada que se dava a um pop star. O episódio em que ele falou que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo é um bom exemplo e foi citado no documentário. Principalmente o impacto entre cristãos fundamentalistas, que mandaram fazer fogueiras com os discos do quarteto. Aparece, inclusive, um membro da Ku Klux Kan tecendo severas críticas. Sem comentários.
E John, em vários momentos, fala de maneira amargurada da sua vida de Beatle. A sério, não deve ser nada fácil ser uma estrela internacional, principalmente começando tão jovem. Ainda pior se você tem que manter uma imagem pop todo o tempo. Não é de espantar que se queira romper com isso ao amadurecer, parece que foi esse o esforço de John, que se concretizou ao encontrar Yoko.
Uma companheira não é uma fã. Uma fã quer viver à beira da fama e gosta do ídolo, não da pessoa. Uma companheira quer ver o amado feliz. Preciso explicar em detalhes?
Quem execra Yoko normalmente o faz porque ela acabou com os Beatles. Ok...
O documentário dá grande destaque para a participação de John e Yoko no ativismo pelo fim da guerra do Vietnam, com cenas do movimento de milhares de pessoas em Washington cantando “All we are saying is give peace a chance”, de John. Também é citada a genial campanha patrocinada com seu dinheiro de pop star (que tinha servir para algo) que espalhou cartazes em todo o mundo com os dizeres “War is over, if you want it”.
O casal foi severamente perseguido pelo governo Nixxon, que não conseguiu extraditá-los, afinal, e fica no ar a possibilidade de ser sua militância a causa da morte de John, pelo menos para mim. Muitas interpretações possíveis, mas um registro muito bem feito deste tempo na vida do casal.
Sobre o papel da mulher na cultura pop, posso dizer que, no tempo em que tenho estado próxima da cena indie, seja na música, quadrinho, ou cinema, tenho visto um pequeno número de mulheres (no quadrinho, esse número é mínimo) e quase sempre em papéis de assessoria, produção e afins, quase nunca assinando trabalhos como autoras, diretoras, ou como front (wo)man. O plano secundário é o papel em que muitas de nós nos colocamos para nos encaixar, ou agradar, porque ninguém quer ser tratada como uma Yoko da vida. Mas se ninguém fizer isso, ainda precisaremos de leis como a Maria da Penha por muito tempo ainda.
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Um gostinho do documentário, para quem ficou com vontade:
UPDATE: Woman Is the Nigger of the World (esta é a opinião de John Lennon sobre o que falei por aqui)
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UPDATE 2
Lindo texto de Pedro Alexandre Santos aprofundando imensamente o tema aqui tratado, na Carta Capital: Por causa da mulher.
Comentários
Adriano.