Sete anos na cidade inventada
A cidade inventada completa cinquenta anos e eu estive sete desses anos vagando sobre ela. Parei para pensar sobre o tempo e sobre a minha relação com este espaço, que, apesar desse tempo todo, não é de apego.
Uma certa satisfação de andar pelas quadras arborizadas, comer uma fruta do pé, o cheirinho de montanha nesse início de seca, os ipês, as corujas, o gosto do pequi, já tão familiar de muito tempo antes. Mas é isso, sempre como num passeio por uma cidade que se acaba de conhecer.
Sei que a interpretação que os invetores da cidade deram aos seus moradores iniciais foi a de que eles seriam temporários. As pessoas morariam próximas a seus colegas de trabalho e isso, claro, não poderia ser um projeto de vida.
Fora isso, os trabalhadores que construíram a cidade deveriam ter deixado a capital (e sua obra) logo após a conclusão, pois não havia espaços planejados para os que não fossem habitar o plano piloto. As satélites não são nem consideradas parte de Brasília para boa parte da população e são tão ruins quanto qualquer periferia abandonada que se tem em qualquer cidade.
Os grandes espaços vazios praticamente inviabilizam os encontros pelas quadras, as pessoas simplesmente evitam cruzar umas com as outras. Encontrões e caos afins só é possível experimentar no que eu chamo de centro e as pessoas daqui chamam de rodoviária do plano ou setor comercial sul. E eu estou nestes lugares quase todos os dias para experimentar a sensação de uma cidade como as outras, que surgiram por um interesse comum.
Esta não, foi transplantada para um lugar com um clima semiárido em boa parte do ano. As pessoas vieram para cá cuidar da administração do Estado Brasileiro e eu nem acredito no estado...
Experimentei a solidão do estrangeiro por essas paradas, porque amigos, por aqui, só se faz no bloco, durante a infância, entre parentes, no colégio, que não são os ambientes em que eu estive, ou no trabalho, em que eu não estou no meu mais sociável. Daí, solidão. Porque mesmo que você decida marcar encontros com pessoas que você conheceu e pareceram interessadas em continuar aquela conversa, esqueça, isso não vai acontecer. Encontros marcados são esquecidos com facilidade, agora até por mim mesma.
Para se relacionar com os locais é preciso muito tempo, paciência e perserverança. Tempo foi o que mais tive ao chegar por aqui, insisti em lugares até me tornar habituê e conseguir uns olás por onde passo. Tudo bem que ter novos amigos é difícil em qualquer lugar, mas aqui a coisa toma outra dimensão. Mas pelo menos já tenho os olás.
A proximidade com o poder também afeta a vida das pessoas daqui. Porque todo mundo conhece Alguém e esse Alguém sempre pode conseguir algo facilmente, desde um emprego, até um convite para uma área VIP qualquer. Sempre me assusto com o quanto se gosta de uma cortesia para uma festa de qualquer tipo, até uma pagável de dez reais.
E tem a nobreza associada ao alto escalão administrativo. Sim, porque a cidade é feita disso também. Não só disso, mas disso também, repito. Todo o centro nervoso da corrupção nacional, do nepotismo, dos jogos de interesse. O dinheiro está aqui. E, com ele, famílias de novos ricos com a cara de Miami, cafonas de doer com suas bolsinhas Louis Vuitton.
Parece trama do destino o maior escândalo político da história da cidade (parece que pela primeira vez as falcatruas geraram algum transtorno por aqui) aconteça bem quando ela beira o meio século. Daí aquele relógio de contagem regressiva dos 50 anos está parecendo o de uma bomba prestes a explodir. E a grande celebração da cidade, que ia trazer um Beatle, ou coisa do gênero, vai ter que se contentar com o menestrel de Brasília mesmo.
Mas um outro lado da cidade, esse que eu também experimentei aqui, aparece bem no meio disso tudo. A vida à margem do estado decidiu, no início desses escândalos, produzir um festa por conta própria. Uma série de coletivos estarão envolvidos, direta ou indiretamente, numa festa com cara de protesto que acontece na Funarte a partir de hoje.
Eu gosto de pensar que coisas assim vão acabar fazendo as pessoas chegarem à conclusão de que o estado é realmente dispensável e que as pessoas precisam assumir suas responsabilidades na manutenção do mundo, sem tranferi-las votando. Sei que é quase nada disso o que acontece quando se faz um trabalho coletivo, as pessoas estão pensando em seus interesses em comum, que são vender algo e obter lucro, fama, ou, como sempre há alguém assim neste tipo de grupo, levar vantagem com o trabalho do outro. Nenhum demérito em querer resultados práticos e materiais, mas trabalhar coletivamente carrega também a dimensão da responsabilidade mútua e é raro combinar gente assim. Tive satisfatórias, mas poucas, experiências do tipo. Decepções foram muitas.
Mas é isso, viver em qualquer lugar é dificil. Conviver com pessoas em qualquer situação é difícil. Essa é minha vida aqui, em outros lugares mudaram os elogios e as queixas, mas elas sempre existiram.
Abaixo um trechinho de Brasília, contradições de uma cidade nova, de Joaquim Pedro de Andrade. O filme é de 1965, mas diz muito do que eu também experimento aqui cotidianamente.
Uma certa satisfação de andar pelas quadras arborizadas, comer uma fruta do pé, o cheirinho de montanha nesse início de seca, os ipês, as corujas, o gosto do pequi, já tão familiar de muito tempo antes. Mas é isso, sempre como num passeio por uma cidade que se acaba de conhecer.
Sei que a interpretação que os invetores da cidade deram aos seus moradores iniciais foi a de que eles seriam temporários. As pessoas morariam próximas a seus colegas de trabalho e isso, claro, não poderia ser um projeto de vida.
Fora isso, os trabalhadores que construíram a cidade deveriam ter deixado a capital (e sua obra) logo após a conclusão, pois não havia espaços planejados para os que não fossem habitar o plano piloto. As satélites não são nem consideradas parte de Brasília para boa parte da população e são tão ruins quanto qualquer periferia abandonada que se tem em qualquer cidade.
Os grandes espaços vazios praticamente inviabilizam os encontros pelas quadras, as pessoas simplesmente evitam cruzar umas com as outras. Encontrões e caos afins só é possível experimentar no que eu chamo de centro e as pessoas daqui chamam de rodoviária do plano ou setor comercial sul. E eu estou nestes lugares quase todos os dias para experimentar a sensação de uma cidade como as outras, que surgiram por um interesse comum.
Esta não, foi transplantada para um lugar com um clima semiárido em boa parte do ano. As pessoas vieram para cá cuidar da administração do Estado Brasileiro e eu nem acredito no estado...
Experimentei a solidão do estrangeiro por essas paradas, porque amigos, por aqui, só se faz no bloco, durante a infância, entre parentes, no colégio, que não são os ambientes em que eu estive, ou no trabalho, em que eu não estou no meu mais sociável. Daí, solidão. Porque mesmo que você decida marcar encontros com pessoas que você conheceu e pareceram interessadas em continuar aquela conversa, esqueça, isso não vai acontecer. Encontros marcados são esquecidos com facilidade, agora até por mim mesma.
Para se relacionar com os locais é preciso muito tempo, paciência e perserverança. Tempo foi o que mais tive ao chegar por aqui, insisti em lugares até me tornar habituê e conseguir uns olás por onde passo. Tudo bem que ter novos amigos é difícil em qualquer lugar, mas aqui a coisa toma outra dimensão. Mas pelo menos já tenho os olás.
A proximidade com o poder também afeta a vida das pessoas daqui. Porque todo mundo conhece Alguém e esse Alguém sempre pode conseguir algo facilmente, desde um emprego, até um convite para uma área VIP qualquer. Sempre me assusto com o quanto se gosta de uma cortesia para uma festa de qualquer tipo, até uma pagável de dez reais.
E tem a nobreza associada ao alto escalão administrativo. Sim, porque a cidade é feita disso também. Não só disso, mas disso também, repito. Todo o centro nervoso da corrupção nacional, do nepotismo, dos jogos de interesse. O dinheiro está aqui. E, com ele, famílias de novos ricos com a cara de Miami, cafonas de doer com suas bolsinhas Louis Vuitton.
Parece trama do destino o maior escândalo político da história da cidade (parece que pela primeira vez as falcatruas geraram algum transtorno por aqui) aconteça bem quando ela beira o meio século. Daí aquele relógio de contagem regressiva dos 50 anos está parecendo o de uma bomba prestes a explodir. E a grande celebração da cidade, que ia trazer um Beatle, ou coisa do gênero, vai ter que se contentar com o menestrel de Brasília mesmo.
Mas um outro lado da cidade, esse que eu também experimentei aqui, aparece bem no meio disso tudo. A vida à margem do estado decidiu, no início desses escândalos, produzir um festa por conta própria. Uma série de coletivos estarão envolvidos, direta ou indiretamente, numa festa com cara de protesto que acontece na Funarte a partir de hoje.
Eu gosto de pensar que coisas assim vão acabar fazendo as pessoas chegarem à conclusão de que o estado é realmente dispensável e que as pessoas precisam assumir suas responsabilidades na manutenção do mundo, sem tranferi-las votando. Sei que é quase nada disso o que acontece quando se faz um trabalho coletivo, as pessoas estão pensando em seus interesses em comum, que são vender algo e obter lucro, fama, ou, como sempre há alguém assim neste tipo de grupo, levar vantagem com o trabalho do outro. Nenhum demérito em querer resultados práticos e materiais, mas trabalhar coletivamente carrega também a dimensão da responsabilidade mútua e é raro combinar gente assim. Tive satisfatórias, mas poucas, experiências do tipo. Decepções foram muitas.
Mas é isso, viver em qualquer lugar é dificil. Conviver com pessoas em qualquer situação é difícil. Essa é minha vida aqui, em outros lugares mudaram os elogios e as queixas, mas elas sempre existiram.
Abaixo um trechinho de Brasília, contradições de uma cidade nova, de Joaquim Pedro de Andrade. O filme é de 1965, mas diz muito do que eu também experimento aqui cotidianamente.
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