Ensadecidos

É assim que ficam as pessoas diante das coisas que elas não entendem. Também ficam ensandecidas as pessoas que acham que suas verdades estão acima das de todos os outros. E não me venha com essa história de que existe uma verdade só e permanente, porque, se fosse assim, Plutão ainda seria planeta e a Terra ainda seria achatada, só para falar de algumas verdades.

Esse preâmbulo, por incrível que pareça, é porque quero falar sobre liberdade de expressão. Ontem tava lendo o Blog do Tas e ele falava sobre a censura do estado chinês na internet do país. A internet ainda não é acessível a grande parte da população mundial, principalmente do terceiro mundo, só que, apesar disso, é o meio mais anárquico de expressão de idéias. Digo anárquico, pois democrático pressupõe que expresse a opinião da maioria e na internet todos se expressam, coisas boas e ruins, sem controle prévio.

Todos podem dizer o que quiser na internet, desde que não fira as leis. No caso do Brasil, isso se refere à discriminação por gênero, orientação sexual, etnia, filosofia, à calúnia, à difamação, coisas previstas na Constituição Federal. A CF também diz que a opinião é livre, mas fica vedado o anonimato, ou seja, todo mundo pode dizer o que quiser, desde que assine.

O anonimato é um fenômeno recorrente na internet, principalmente em comentários em blogs e no orkut. No caso do orkut são comuns aquelas comunidades intolerantes, do tipo eu odeio alguém, em que as pessoas se manifestam desorganizadamente. Agora no caso de comentários em blogs, bem, é sobre isso mesmo que pretendia falar desde o começo.

Blogs eram inicialmente diários virtuais e hoje caminham para algo entre isso e o jornalismo opinativo, em muitos dos casos. Muitos jornalistas, cantores, atores, coletivos de toda a sorte mantêm blogs para atualizarem seus leitores, admiradores ou simplesmente amigos sobre suas opiniões sobre o que acham importante.

Mas quando se diz o que se pensa, sempre aparecem aqueles que discordam. Muitos dizem abertamente com o quê não concordam. Só que tem outros...

Em agosto de 2006, o já citado Marcelo Tas publicou um texto, parte da comemoração dos 3 anos do seu blog, em que afirma que "os próprios blogonautas começaram a me escrever reclamando daqueles tipos que aparecem por aqui apenas para fazer promoção de si mesmo. Ou zoar pelo simples prazer de zoar. Sem trazer qualquer idéia nova. Ou mesmo alguma graça" e que por isso passaria a moderar os comentários, que eram livres até então. Isso pode ser lido no texto Aviso Aos Navegantes.

Alexandre Inagaki, do Pensar Enlouquece, escreveu sua justificativa para a moderação dos comentários no texto Porque os comentários deste blog passarão a ser pré-aprovados antes da publicação, lembrando o caso do blog Imprensa Marrom, que foi condenado a pagar indenização a uma empresa por conta de um comentário irresponsável de um dos seus leitores.

Hoje estava lendo o blog da cantora Karine Alexandrino e o último post disponível tem mais de 20 comentários, a maioria deles anônimo, ou com algum nome fantasia, de pessoas que parecem descontroladas e escrevem ofensas de todo o tipo. Karine Alexandrino é do tipo de artista "ame ou odeie" e tem incomodado muita gente, pelo jeito.

Posso não ser uma blogueira tão famosa assim, mas eu também tenho meus casinhos para contar sobre assunto. Ano passado escrevi, no Facada Leite-Moça, um texto em que comparava o mau uso de verbas públicas da cultura com o mensalão do Congresso Nacional. Pessoas tomaram isso como pessoal e começaram a me ofender, ninguém chegou a criticar o texto em si. Um anônimo me chamou de pata, balconista de farmácia e sei lá mais o quê.

Mais recente, no fim do ano passado, fiz um texto, aqui neste blog (se quiser procure no marcador "teatro"), sobre uma peça de teatro da qual não gostei (opinião que se mantém a mesma) e os atores ficaram bastante incomodados, desqualificaram minha capacidade de fazer crítica e coisas afins, alguns anonimamente. Um tempo depois descobri que era a única crítica sobre a peça disponível na internet, já que todo o resto publicado sobre o assunto não passava de serviço sobre locais de exibição. Lembrei que, num curso de crítica cultural que fiz na Cásper Líbero, Alberto Guzik, que fez a apresentação sobre crítica teatral, defendeu que crítica não passa da opinião de quem escreve sobre um certo assunto e, no fim, não deve ser considerada mais que isso, ou algo bem próximo a isso.

Normalmente quando eu considero algo idiota demais, principalmente no que se refere a críticas a coisas que eu mesma faço, não costumo dar muita importância. Mas vejo que tem gente que gasta tempo e energia em perseguir pessoas, que nem sequer conhecem, pelo simples prazer de espinafrar. Para mim, o que há de mais nojento é uso do anonimato para poder se dizer o que quiser. Uma pena, pois o que era para ser livre, por conta disso, passa a ser moderado.

Não, não farei isso aqui. Pelo menos agora.

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