Sobre Páginas Amarelas

Um amigo insistiu muito para que eu fosse assistir à adaptação brasiliense do quadrinho (ou banda desenhada) A Pior Banda do Mundo, do português José Carlos Fernandes, para o teatro. Páginas Amarelas é nome da peça e faz referência à coloração das páginas da publicação.
Já adianto que teatro não é dos meus passatempos favoritos e eu costumo evitar peças com montagens de grupos desconhecidos ou de estudantes, como era o caso desta. Mas com alguma boa vontade acabei na sala de teatro durante o Prêmio Sesc de Teatro Candango, realizado em Brasília no final de outubro.
Começo falando da boa impressão que me causou o cenário feito de módulos de madeiras que eram arranjados de acordo com as cenas, simples, prático e com um bonito efeito visual. A maquiagem escolhida reproduziu o clima presente no quadrinho, assim como o figurino.
O texto adaptado conseguiu selecionar parte representativa do que está presente nos cinco volumes da Pior Banda publicados no Brasil. Mas encerro aqui as boas impressões.
Uma das coisas que mais me agradam em A Pior Banda do Mundo é como o autor é capaz de fazer com que nos identifiquemos com as ações insignificantes de seus personagens. Pequenas frases que ficam ecoando depois que terminamos de ler as curtas histórias de duas páginas que se sucedem em cada exemplar. As profissões escolhidas por ele são sempre estranhas, como o catalogador de nuvens, o serrilhador de selos, coisas assim, insignificantes como acontece na maioria das profissões do mundo real, cito aqui aqueles caras que fazem pesquisa de intenção de compra de produtos inúteis, por exemplo. Só que ele não trata do mercado, mas de coisas delicadas, que todo mundo já fez, ou pensou em fazer, mas que nunca imaginou que seria profissão. Os personagens são contidos, cheios de dilemas cotidianos, sem grandes dramalhões.
Bem, isso é no quadrinho. A adaptação brasiliense para o teatro transformou personagens singelos em pessoas ridículas. A solitária que fica pensando em encontrar um amor ao descer as escadas, ou ao atender a um telefonema, que pode ser de um amor do passado, foi transformada em uma solteirona ridícula, que acredita no absurdo de amar de novo, algo impossível para quem não é jovem e linda. É um humor “Zorra Total”, que deve vir da escola de grupos como Os Melhores do Mundo, que é daqui de Brasília e tem atores no programa global. O teatro na cidade é infestado desse humor pastelão e de discriminação de pobres, gays, mulheres, deficientes e etc.
Da mesma forma um trecho em que um personagem descobre que pode ser o sonho de alguém e imagina como seria se a pessoa que o sonha acordasse, foi transformado num dramalhão fora do propósito. Fora as pantomimas com excesso de caretas, que descaracterizaram o tom clássico do quadrinho. Exageros que pareceram querer esconder a falta de coragem de encarar momentos de silêncio e de reflexão e que fizeram a platéia rir do que não tinha graça e com certo constrangimento.
Vá direto ao original: A Pior Banda do Mundo


Comentários

Anônimo disse…
Boa crítica. hehe

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