Não alimente seu rancor de estimação
O Rancor é o tonel das Danaidas alvíssimas;
A Vingança, febril, grandes olhos absortos,
procura em vão encher-lhes as trevas profundíssimas,
Constante, a despejar pranto e sangue de mortos.
O Diabo faz-lhe abrir uns furos misteriosos
Por onde se extravasa o líquido em tropel;
Mil anos de labor, de esforços fatigosos,
Tudo seria vão para encher o tonel.
O Rancor é qual ébrido em sórdida taverna,
Que quanto mais bebeu inda mais sede tem,
Vendo-a multiplicar como a hidra de Lerna.
- Mas se o ébrio feliz sabe com quem se avém,
O Rancor, por seu mal, não logra conseguir,
Qual torvo beberrão, acabar por dormir.
O Tonel do Rancor, por Charles Baudelaire,
in "As Flores do Mal"
Um dos maiores desafios da vida é não ficar alimentando o rancor. Querendo ser nobre, grande, superior mesmo. Ficar ali, encostado no que fere, dizendo que assim é agem as melhores pessoas. Mas a única coisa para que isso serve é alimentar essa besta que corrói corações.
Para que insistir em ficar perto daqueles parentes que torcem para o seu fracasso? Fazer festa de aniversário ou natal para que eles entrem em casa e reclamem da comida, decoração e constranjam os amigos mais queridos? Fuja para a floresta, chapeuzinho. Faça algo do qual eles não queiram participar, algo que reúna quem te ama e encha esse seu coração de afeto.
Para que fingir que aquele seu colega de trabalho que te atormenta é seu amigo? Sair para beber, almoçar, basta. Gaste seu tempo livre cuidando de você.
Pare de falar com aquele vizinho que gosta de contar quem ficou falando mal de você no prédio. Se afaste daquela turma que ri toda vez que você tropeça e que gosta de ressaltar suas fraquezas.
Esse poço sem fundo de amargura vai te paralisar, te empurrar para baixo, te impedir de conseguir aquilo que você quer. É só não alimentar, prometo que ele morre sozinho.
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