A mina amiga dos caras

No bairro onde cresci, eu sempre brinquei com meninos e com meninas porque era a mais velha da rua de um bairro novo da periferia de São Paulo.

Quando fiquei adolescente, comecei a participar do grupo de jovens da igreja e acabei militante da pastoral da juventude e, como tal, fui uma das delegadas num encontro intereclesial de comunidades eclesiais de base, em que participei de um bloco que discutia a opressão feminina (bloco Margarida Alves). Eu tinha 18 anos e foi a partir dessa idade que as coisas começaram a mudar nas minhas relações.

Como a PJ era um grupo de ativismo de esquerda, um número maior de meninos chegava aos postos de liderança, porque era um grupo hierarquizado com organização que saía da comunidade de base, cidade, estado, país, até América Latina. Nesta escadinha de influência, fui designada secretária, um cargo de mulher, alguém poderia dizer, e, assim, passei a andar mais com homens do que com mulheres.

Comecei a namorar e mudei meu grupo de amigos, andava com os amigos do namorado, basicamente. Depois de uns anos, quando terminamos, me vi sozinha, tendo que reconstruir todas as relações.

Não foram poucas as vezes nesse meio tempo e depois disso que passei por situações complicadas por ciúmes de outras meninas ou aquelas rixas clássicas atribuídas a mulheres que falam mal dos cabelos, das roupas, do estilo umas das outras.

Quando saí de São Paulo, acabei num grupo de amigos em que as mulheres fizeram tudo o que puderam para me deixar desconfortável e sair dali. Acho que aquelas meninas nunca se deram conta de que foi um linchamento emocional o que eu passei, porque eu não tinha para onde ir, ali era minha nova casa. Foi um massacre provavelmente porque eu era uma nova mulher a "ciscar naquele terreiro", pois estava namorando um dos caras da turma. Não vou dizer que o papel dos homens foi menos ruim na minha recepção, mas foi o das meninas que me mais me machucou e acabei desencadeando uma depressão que só deixou de ter seus efeitos em mim alguns anos depois. Hoje sei que nunca serei capaz de me relacionar com elas novamente (nem com os rapazes).

Saí daquela cidade (com o namorado de lá) e na nova cidade minhas relações se desenharam no mesmo modelo. Quando me dei conta, estava de novo cercada de homens por todos os lados. Orgulhosa por isso, até. "Porque mulheres não são confiáveis". "Porque mulheres são emocionais demais". Repetindo esses e não sei mais quantos outros discursos machistas, talvez fruto da mágoa que carregava das experiências recentes, talvez por pura reprodução do machismo apenas.

Um dia falei sobre isso com um amigo e tive que ouvir de um homem (provavelmente não prestaria atenção a uma mulher naquela altura) que essa minha postura era péssima pra mim, que eu precisava estar perto de quem entende muitas das coisas pelas quais eu passo. Isso foi um pouco antes desse namoro acabar. Passei vários anos trabalhando na cena cultural da cidade com homens e só quando meu relacionamento acabou é que percebi a extensão da referência "namorada de fulano" que usavam ao falar de mim. Nada meu foi para frente com essas pessoas. Relatei isso antes aqui.

Depois que decidi mudar minha relação com as mulheres e com a mulher que sou, as coisas passaram a ter um outro fluxo na vida. Sororidade não é apenas uma palavra bonita, é um mantra de sobrevivência que torna possível que saiamos da sombra, de estar atrás, no suporte, no apoio. Não, nem toda mulher é maravilhosa e incrível, mas o contrário também é verdade, nem toda mulher é horrível. Ainda são muitas que, como eu fui até pouco tempo, acham que mulheres demais atrapalham, que é mais fácil fazer coisas com homens. Elas estão sendo tratadas como auxiliares "porque o que ela quer é se sentir parte, não importa a função" e não recebem créditos devidos pelos trabalhos que fazem, esperando reconhecimento de caras que acham que estão fazendo o favor de deixar elas participarem. Espero que um dia cada uma delas se dê conta de seu papel no mundo e que isso pare.

Ainda tenho muitos amigos homens, não me entenda mal, e são muitíssimo amados. Mas agora não faço mais parte de uma turma de homens e sou a mina amiga dos caras, sou uma pessoa, mulher, que se relaciona com outras pessoas. E não é coincidência que todas as coisas que estão dando frutos e indo em frente nesta nova fase (coisa que tentei fazer funcionar por muito tempo) são parcerias com mulheres.

Ainda tenho problemas com mulheres, não é fácil me relacionar com muitas, porque são pessoas, e também não me dou bem com muitos homens. Mas hoje eu sei que muitas das mulheres que implicam comigo estão amarradas neste mesmo tipo de comportamento que me travou por muito tempo e espero que consigam se libertar dele um dia.

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