Quando o desvio passa ser o caminho definitivo



"A primeira vista, uma mercadoria parece uma coisa trivial e que se compreende por si mesma. Pela nossa análise mostrámos que, pelo contrário, é uma coisa muito complexa, cheia de subtilezas metafísicas e de argúcias teológicas. Enquanto valor-de-uso, nada de misterioso existe nela, quer satisfaça pelas suas propriedades as necessidades do homem, quer as suas propriedades sejam produto do trabalho humano. É evidente que a actividade do homem transforma as matérias que a natureza fornece de modo a torná-las úteis. Por exemplo, a forma da madeira é alterada, ao fazer-se dela uma mesa. Contudo, a mesa continua a ser madeira, uma coisa vulgar, material. Mas a partir do momento em que surge como mercadoria, as coisas mudam completamente de figura: transforma-se numa coisa a um tempo palpável e impalpável. Não se limita a ter os pés no chão; face a todas as outras mercadorias, apresenta-se, por assim dizer, de cabeça para baixo, e da sua cabeça de madeira saem caprichos mais fantásticos do que se ela começasse a dançar".




Nas minhas relações com a esquerda militante do final do anos 80 e início dos anos 90, os estudos marxistas sempre concluíam, inevitavelmente, em criticar severamente a sociedade de consumo do modelo do capitalismo do século XX. Por algum motivo, que estranho profundamente, a mesma esquerda (as mesmas pessoas que acabaram por chegar ao poder) são hoje grandes defensores do consumo com forma de inclusão social.

Fico imaginando como é possível que o sempre criticado fetichismo da mercadoria possa ser o método de libertação dos oprimidos. Parece uma simplificação cínica esta que estou fazendo (e é realmente uma simplificação, mas não cínica), mas não vejo outra forma de encarar a coisa toda.

Entenda: não acho que as pessoas não devam ter coisas bonitas, úteis ou não, ou gadgets modernosos, todos merecemos conforto em todos os níveis. Mas isso não substitui uma boa educação, um sistema de saúde decente, uma vida segura em todos os seus aspectos e vivemos hoje o oposto disso.

Dizem que esse é só o caminho escolhido e que o fim é a melhoria real da qualidade de vida das pessoas (essa melhoria hoje é circunstancial, convenhamos). O que me preocupa é que, historicamente, todos os desvios que usamos para chegar a nossos objetivos (bem intecionados ou não) acabam por se tornar fins em si mesmos. Um belo exemplo disso foram as ditaduras comunistas instaladas pelo mundo: o centralismo democrático e a ditadura do proletariado são meios (teóricos) de se alterar a ordem social e se chegar ao socialismo pleno, que deixou de ser almejado rapidamente em todos os casos.

Raquel Rolnik, relatora especial da ONU para o direito à moradia adequada, foi entrevistada sobre a violência utilizada para desapropriação do bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, e falou sobre inclusão social pelo consumo:

“Por que estamos indo para trás?
É preciso ver como se foi constituindo uma pauta dominante. Como a pauta da inclusão social acabou sendo sinônimo apenas da inclusão no mercado, via melhoria das condições de renda. A inclusão no campo cidadão acabou tendo um papel muito menor e menos importante.
Nesse momento de desenvolvimento econômico muito importante, as terras urbanas e rurais adquirem um enorme valor econômico. Os conflitos em torno da terra estão sendo acirrados em função disso, dado o enorme e importante valor que a terra está assumindo. A exacerbação dos conflitos de terra tem a ver com o aumento do interesse pela terra.”

“Temos que entender que sempre existiram forças conservadoras no país. Por que hoje elas têm mais força, mais poder? As forças progressistas abandonaram essa pauta e essa agenda e precisam retomá-las. Existem forças progressistas no Brasil.
Abandonaram a pauta social por quê?
Porque privilegiaram fundamentalmente a inclusão pelo consumo, o maior poder de compra, a valorização de salário, que são pautas fundamentais. Mas não pode ser só isso. Está na hora das forças progressistas retomarem essa luta.”

Paulo Moreira Leite, em análise de artigo da revista Economist sobre Brics disse que:
“A ideia da eficiência natural do mercado esbarra em contradições importantes. Os mercados tem uma dificuldade imensa para lidar com a desigualdade social, problema que está na raiz das principais crises econômicas recentes. Sem mercados para crescer, a economia cria sistemas de credito para emprestar dinheiro para quem pode consumir mas não tem renda de verdade para pagar a conta, montando uma bola de neve que produziu os derivativos que explodiram em 2008”.


A base da inclusão social da chamada nova classe C é o acesso a crédito no sistema financeiro. Com uma inflação oficial de cerca de 7% ao ano, cartões de crédito para as classes mais baixas chegam a ter juros mensais de 15%. Uma agiotagem que não pode acabar bem, a exemplo do que aconteceu nos EUA.

E me preocupa ainda mais quando se defende que os grandes ganhos que esta "nova" classe social terá virão da meritocracia, com a recompensa para as pessoas que se esforçarem mais. Como li em texto Juremir Machado da Silva sobre cotas: "O pressuposto de que os “melhores” devem ter preferência é falacioso. A questão é: por que eles são os “melhores”? Por que são naturalmente mais inteligentes? Por que necessariamente trabalharam mais? O que significa ser “melhor”? Em linhas gerais, os “melhores” são aqueles que tiveram melhores oportunidades de preparação ao longo de toda a infância e adolescência. Ou seja, no caso da sociedade brasileira profundamente hierarquizada e desigual, os brancos mais aquinhoados."




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