Sobre boicotes

Uma nova série de denúncias sobre uso de trabalho (análogo ao) escravo em confecções no Brasil e começo a ouvir várias propostas de boicote. Entendo a indignação e lembro que este tipo de manifestação funcionava muito bem há algumas décadas, mas vivemos uma nova fase do capitalismo e não vejo mais sentido nisso.
Explico o porquê: um sistema de produção como esse se estabelece amplamente antes de aparecer o primeiro escândalo, com total conivência das autoridades. Logo, para se fazer um boicote às confecções todas que usam esse tipo de trabalho, andaríamos nus, por assim dizer. E isso é muito sério.
Veja só, agora foi a vez da Zara, mas logo em seguida já encontraram o mesmo tipo de irregularidade nas marcas Billabong, Ecko, Gregory, Brooksfield, Cobra d'Água e Tyrol. Antes disso já tinha acontecido na C&A (a matéria lista mais empresas de outros setores), na Marisa e já ouvi falar que também na Riachuelo e nas Pernambucanas.

Daí você diz que vai consumir apenas produtos de empresas responsáveis, preocupadas com a sustentabilidade. Pensou na Natura, que usa bem esse discurso? Olha só o que ela anda fazendo: Natura demite trabalhadores doentes.

Estamos vivendo um tempo em que existem muitas marcas de um certo produto, mas boa parte delas são de um mesmo grupo. Posso citar o exemplo da AmBev com cerveja, que já dá para entender. Assim, boicotar a skol, mas tomar brahma não faz a menor diferença no bolso dos caras.

O que fazer diante disso? Boa pergunta.

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UPDATE: Lembrei de uma matéria que li ano passado sobre escravidão em confecções em São Paulo. O texto é da Marie Claire: Escravas da moda
"Estima-se que existam 100 mil bolivianos trabalhando em condições análogas à escravidão em 8 mil pequenas confeccções na capital paulistana. “É uma mão de obra que chega ao Brasil devendo o custo da viagem aos seus patrões. A dívida gera uma relação de servidão que pode se arrastar por meses e até anos”, diz Renato Bignami, auditor-fiscal do Ministério do Trabalho. A quitação desse valor equivale à alforria."

(não resisti e vou fazer essa observação "contundente": um país de governo "operário" escravizando trabalhadores de outro país de governo "operário". parece que o chamado pós-capitalismo é quase igual ao que diz ter superado)

UPDATE 2: Essa imagem é de El Marco Toxico, da Bolívia, que vai participar da Bienal de Arte Urbano, em Cochabamba.


Comentários

Anônimo disse…
Que puta post responsa!

Adriano.

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