La democrácia

Viciada neste texto do Coetzee, em que ele questiona o estado hobbesiano que diz que "é conservada por todo súdito tanta liberdade quanto lhe seja suficiente para viver bem e de maneira tranquila e é tirado dos outros aquilo que é preciso para perdermos o medo deles... Fora (do governo civil) assistiremos ao domínio das paixões, da guerra, do medo, da miséria, da imundície, da ignorância, da solidão, da barbárie e da crueldade; nele, ao domínio da razão, da paz, da segurança, das riquezas, da decência, da sociedade, da elegância, das ciências e da benevolência".

Fora do governo civil seríamos espontâneos, o que é uma ideia de liberdade inaceitável àqueles que não conseguem se sentir responsáveis por si mesmos e precisam de outros para monitorar seus próprios passos. Ao trecho, que extraí do outro trecho publicado no link acima:


"Na época dos reis dizia-se ao sujeito: Você era súdito do rei A, agora o rei A morreu e olhe! você é súdito do rei B. Então chegou a democracia e o sujeito pela primeira vez se defrontava com uma escolha: Vocês (coletivamente) querem ser governados pelo cidadão A ou pelo cidadão B?
O sujeito se vê sempre confrontado com o fato consumado: no primeiro caso com o fato de sua sujeição; no segundo, com o fato da escolha. A forma de escolha não está aberta a discussão. A cédula de votação não diz: Você quer A ou B ou ninguém? O cidadão que expressa sua insatisfação com a forma de escolha pelo único meio que lhe resta - não votar ou anular o voto - simplesmente não é contado, quer dizer, é descontado, ignorado.
Diante da escolha entre A e B, dado o tipo de A ou o tipo de B que geralmente chega à cédula de votação, a maioria das pessoas, pessoas comuns, tende, em seu coração, a não escolher nenhum. Mas isso é só uma tendência, e o estado não lida com tendências. Tendências não fazem parte da moeda corrente da política. O estado lida é com escolhas. A pessoa comum gostaria de dizer: Em alguns dias eu tendo para A, outros para B, a maior parte dos dias eu sinto simplesmente que eles deveriam sumir; ou então, Um pouco A, um pouco B às vezes e outras vezes nem A nem B, mas alguma coisa bem diferente. O estado sacode a cabeça. Você tem de escolher, diz o estado: A ou B."

O trecho foi extraído do livro Diário de um Ano Ruim, de J. M. Coetzee.


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UPDATE: E depois de todo o terrorismo durante a eleição, em que me diziam que era preciso dar continuidade a todo o "avanço", que o AI 5 digital viria, que não teria mais concurso, nem reajuste para os servidores e mais uma patacoada de coisa, eu digo para vocês queridos terroristas: eu já sabia. Todo governo é apenas mais um governo (seria igual com a oposição também, a política "revolucionária" é tão frágil que pouco mais de dois meses consegue por quase tudo abaixo).
E já não haverá mais concursos, nem reajuste. E o AI5 digital começa a aparecer. E foi cortada a verba da cultura, da educação e da saúde e aumentada a da bolsa família e das obras para a Copa e Olimpíadas. Se isso não for política de pão e circo, não sei mais o que é.

E para quem me disse que só existiam duas opções, eu repito aqui um trecho mais adiante deste texto do Coetzee que postei aí em cima:

"Existe uma terceira via, escolhida por milhares e milhões de pessoas todos os dias. É a via do quietismo, do obscurantismo voluntário, da emigração interior."

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