Quem tem medo de estrangeirismos

Não gosto das fronteiras. Elas limitam o acesso, impedem de conhecer coisas novas, demarcam posses imaginárias, separam pessoas. Logo, não posso ser uma nacionalista, já que a pátria é um espaço limitado por fronteiras, basicamente.

É consequência disso eu admirar a capacidade da minha língua nativa assimilar palavras de toda sorte de idiomas estrangeiros. Na enciclopedia sem fronteiras, a Wikipedia, esse fenômeno é chamado de empréstimo linguístico, "que ocorre quando uma língua integra uma palavra existente em outra língua, sendo que a palavra não sofre grandes alterações e mantém o mesmo sentido".

O que hoje chamamos de Brasil, era um conjunto de milhares de nações, cada uma delas com uma língua distinta. Junte a isso a dominação portuguesa (que nos trouxe aquilo que costumamos chamar de língua nacional pela força, o português) e as inúmeras origens dos africanos que vieram para cá trazendo seus idiomas. O que temos como resultado? O português brasileiro, que é absolutamente antropófago.

Antropófaga é a pessoa que se alimenta de outras pessoas. Antropófaga seria a língua que se alimenta de outras línguas, por extensão?

O Manifesto Antropófago fala sobre língua e fronteira: "foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil". E continua: "Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro."

Policarpo Quaresma, o personagem de Lima Barreto, lutava pelo orgulho nacional e sua principal reivindicação era o tupi como idioma brasileiro. Mas o tupi era apenas uma das centenas de idiomas presentes no Brasil na chegada dos portugueses. O Triste Fim de Policarpo no nome do livro é apenas uma antecipação de como seu orgulho nacionalista foi capaz de ferir sua alma, o livro é triste, mas mostra bem os males dessa exaltação.

O que chamamos hoje de língua nativa é a língua do vencedor da história, do colonizador. Mas é da nossa natureza não sermos puristas e mantermos as línguas dos dominados nas pequenas coisas. Nem por isso deixamos de assimilar o que aparece de influente (muitas vezes dominador de novo) e fazemos o de fora algo nosso novamente, na nossa dinâmica antropófaga.

E são tantos os exemplos que temos no que falamos cotidianamente e já aceitamos como nosso, que decidi separar aqui um pouco só do que vem de culturas que dominam ou dominaram a nossa: da língua inglesa, com os EUA hoje e a Inglaterra no passado; língua francesa, da época que a França ditava a cultura do mundo; e, por fim, da língua árabe, quando Portugal foi dominado pelos mouros.

Antes de passar à lista, recomendo ler:

A lista:


Inglês
Oh Shit - oxente
Stand - estande
Surfer - surfista
Beef - bife
Club - clube
Knockout - nocaute
Yacht- iate
Blackout - blecaute
Goal - gol
Team - time
Baskettball - basquete
Crack - craque
Cock-tail - coquetel
Reporter - repórter
Shampoo - xampu
Sandwich - sanduíche
Tourist - turista

Francês
Journal - jornal
Troupe - trupe
Abajour - abajur
Bouquet - buquê
Buffet - bufê
Camelot - camelô
Canet - carnê
Báton - batom
Bidet - bidê
Cachet - cachê
Filet - filé
Cognac - conhaque
Tricot - tricô
Ballet - balé
Bonnet - boné


Árabe
Assaut - açoite
Assukar - açúcar
Assudd - açude
Alkohul - álcool
Al-khaç - alface
Al-lzaward - azul
Al-Axir - elixir
Laimun - limão
Naranj - laranja
Matmura - masmorra
Tanbur - tambor
Xatranj - xadrez

Comentários

ê. disse…
não sabia do oxente, hehe.
no macunaíma rola umas palavras assim também

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