Loca pos ti
(Karine Alexandrino)
Provavelmente este não seria o melhor título para o post, mas eu não resisti à brincadeira que começamos a fazer em casa quando compramos as passagens para Fortaleza.
Faz alguns anos que o Ceará tem fornecido trilhas sonoras ótimas, que têm acompanhado fases da minha vida. Já falei aqui do quanto gosto de Karine Alexandrino e o quanto é bom ver um show do Montage. Estava ansiosa para conhecer este lado da cidade.
O certo é que estava mesmo atrás de diversão quando cheguei por lá. Um cotidiano acéptico e previsível no mundo de faz de conta dos outros (muita gente chama isso de “realidade”) estava realmente me deixando neurótica. Eu sei que preciso de caos e de ver pessoas, mesmo que eu não interaja diretamente com elas. Talvez precisasse também de um pouco de calor e umidade, que me fizeram muito bem.
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Tudo começou com um passeio pelo centro da cidade, num dia chuvoso. Foi o momento de andar pela famosa Praia de Iracema, que é um cenário um tanto estranho, por conta da quantidade de rochas na beira a praia. Calçadas a cerca de dois metros do chão (não sou muito boa em cálculos visuais, mas acho que era por aí), em caminhos tortuosos foram o cenário do primeiro passeio pela cidade.
E enfim cheguei no tão falado centro cultural Dragão do Mar, que é um dos nomes da água-viva. Lá, entendi porque se fala tanto. Tudo acontece por ali: bares, botecos, sinuca, pub, boates, Espaço Unibanco de Cinema, Museu de Arte Contemporânea, teatro, feira de artesanato, biblioteca e um Café Santa Clara (desculpe a propaganda) absolutamente delicioso. Devo ter esquecido algo...
Vista do Café Santa Clara, no Dragão do Mar
Em seguida, um passeio pelo centro histórico. Uma passadinha pela Catedral da Sé, onde acontecia a missa de Corpus Cristi, um dos poucos lugares com algum movimento nesta quinta de feriado. O Mercado Central, que fica ao lado, estava aberto, apesar de pouca gente comprando, tive a sensação de que ia fechar logo. Aproveitei para matar as comprinhas de lembranças e comprei um pacote de caju caramelizado (tudo no Ceará tem caju) e uma cuscuzeira nova, que faz dois cuscuzinhos individuais, tão bonitinha.
Passadinha na Praça do Ferreira, no Theatro José de Alencar e voltar para casa para descansar um pouco antes do chopinho no Dragão, que virou tradição do fim de semana.
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Um dia teria que ser dedicado a um passeio numa praia de cartão postal, ou o que o valha. Jericoacoara era longe demais, Canoa Quebrada, hippie demais, então decidimos ir ver as falésias de Morro Branco e Praia das Fontes, que ficam em Beberibe e pareciam lindas no folheto que vimos no hotel.
É da areia colorida das falésias que fazem aquelas garrafinhas com desenhos de coqueiro e afins, que insistem em nos trazer quando alguém visita a região. O que me encantou mesmo foi o trabalho dos guias, que me falaram que o turismo e o artesanato são a única opção da população local para não cair da miséria.
O que conduzia o bug falou, com certa tristeza, que no lugar daquelas mansões de mau gosto que estavam instaladas em cima daqueles morros, antes moravam os pescadores que precisaram se mudar para praias mais distantes para poder continuar trabalhando. E me enumerou o nome dos novos “donos” daquele pedaço: empresário tal, político tal... O que nos conduziu pelo labirinto de falésias falou sobre a importância de preservar aquilo tudo, para poder continuar a ter uma ocupação decente.
Praia das Fontes, em Beberibe
Eles me lembraram de uma conversa que eu tive com uma funcionária do governo responsável por aprovar destinação de verbas desses fundos que inventam todo dia com a desculpa de diminuir as desigualdades sociais, mas que têm mesmo é enriquecido os responsáveis pelas ONGs que conseguem ter seus projetos aprovados. Eu perguntei por que o dinheiro não é entregue diretamente às comunidades e a resposta que tive foi: “eles não têm a menor condição de conduzir um projeto social ou ambiental sozinhos”. O que eu sei é que aqueles meninos fariam um ótimo trabalho.
Passeamos de bug pelas dunas ouvindo histórias sobre a região e sobre o que tinha mudado com a invasão dos ricaços na área. Mas o que mais causava estranheza era que o fundo desse cenário eram os cataventos gigantes para captação de energia eólica que se espalhavam por quase toda a extensão da praia. Um cenário futurista de fim de mundo nos perseguiu todo o tempo em que ouvíamos histórias de desigualdade e exclusão.
Voltamos para casa exaustos, mas isso não foi suficiente para nos impedir de ir de novo para mais um chope no Dragão.
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Olhar para as jangadas no mar de Beberibe me fez lembrar de Orson Wells e o seu É Tudo Verdade, filmado no litoral do Ceará e encomendado originalmente para a chamada política de boa vizinhança entre Brasil e Estados Unidos, que também rendeu a parceria com Walt Disney, e o seu Zé Carioca, além da pequena notável Carmen Miranda. Durante as filmagens um dos jangadeiros morreu, o que mudou os rumos do filme, que destacou a pobreza e as desigualdades sociais, quando deveria ser uma propaganda da pobreza nostálgica, essa da qual intelectual adora falar. Um bom texto sobre o filme pode ser lido no site do festival que leva seu nome.
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Sabadão era o último dia na cidade, saímos relativamente cedo de lá no domingo, então era fazer tudo o que faltava. Bater um carangueijo no Chico do Carangueijo, na Praia do Futuro. Uma loja de quadrinhos. Passeio rápido pelo centro, com direito a bolinho na padaria para não perder o costume.
À noite, uma festa junina com competição de quadrilhas na Praça do Ferreira e mais um café Santa Clara. Mas e a balada loca da cidade?
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No domingo, ainda foi possível passar uns dez minutos em São Luís, onde tomei um guaraná Jesus no Centro Histórico e visitamos a Casa de Nhozinho, um artesão de bonecos que precisa ser conhecido.
Muitos casarões depois, voltamos para nosso apertamentozinho na capital federal e fim da história.
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