A morte, o medo de morrer
Se há uma coisa que essa pandemia trouxe com força foi o medo de morrer. Uma constante, que talvez tenha sido mais naturalizada agora, com o passar de tantos meses, essa sensação de que pode acontecer a qualquer momento e de um jeito horrível.
Começou com um pavor intenso, que gerou crises de falta de ar da ansiedade. E a falta de ar é sintoma da doença que avassala o mundo, então o medo e a ansiedade se retroalimentavam.
Daí a morte começou a aparecer por conta dos efeitos do medo da morte. Pessoas próximas de outras pessoas próximas começaram a morrer do coração, de AVC,a se matar por não aguentar mais. Demorou um pouco para chegar mais perto, mas nunca esteve muito longe.
Celebridades, pessoas dos meios artísticos em que eu circulo. Aconteceu com a vizinha de infância, vítima da pandemia mesmo. Foi a morte de uma das meninas de um grupo que eu participava que me deixou mais abalada. Morreu de infarto. Um de seus últimos posts numa rede social foi brincando com a vida workaholic de quem mexe com produção e toma litros de café. Existe uma brincadeira comum nessas atividades estressantes: "dormir para quê, descansamos depois da morte". A morte chegou bem cedo. Ela tinha mais ou menos a mesma idade que eu, menos de meio século é pouco ainda para se ir assim.
Eu sinto muito por essas escolhas parecerem descoladas. O discurso de que é preciso deixar uma obra. O que acontece é que ninguém se importa. A gente se torna irrelevante e será esquecido muito rapidamente. Tudo passa. O que importa é mesmo o agora. Gastar tempo com o que se deixará pra trás me parece algo demasiado sem sentido.
Fazer a obra porque é preciso que ela seja feita, o momento agora do criar para manter a sanidade. Qualquer forma de expressão que se projete no tempo é desonesta, porque o único tempo possível é o agora, e ele mesmo deixa de ser real num átimo. Não controlamos nossa própria relevância no tempo depois desse, precisamos ser relevantes para nós mesmos, primeiro.
Fiquei triste. Eu tinha me afastado desse grupo, e dela, por conta mesmo dessas questões que são ideológicas também. Fiquei com medo, também, de ser jogada nesse triturador de vida que quer nos sugar por conta de uma suposta relevância, influência. Achei que ia poder falar com ela um dia sobre isso. A vida não deixou.
Comentários