Afetamentos

Fui educada para descuidar de mim, a me deixar de lado para garantir o bem-estar de qualquer um que não seja eu. Mas qualquer um mesmo.

Engolir o choro sempre. Frescura, né, isso de ser sensível porque as coisas doem para caralho na gente. Ser forte, porque é você consegue.

Ser humilhada pelo colega da rua, pela professora, pelo pai, mãe, irmã e ser superior, não descer ao mesmo nível, fingir que nada aconteceu. E deixar que eles sejam pequenos e continuem humilhando.

Para agradar ao namoradinho, tem que esquecer o que dói também. Amar é sofrer. Aguentar os deslizes, abandonos. Os encontros marcados em que ficou sozinha. Preferir estar sempre com os amigos que me zoam por qualquer motivo. As mancadas, desencontros e ouvir que a culpa é sua e entender que é mesmo, porque não pode incomodar. 

Aguentar o chefe chamando de burra, porque precisa do emprego, e é assim mesmo, reagir é pior. Mandar ficar até mais tarde sem precisar. Fazer trabalho de outra pessoa preguiçosa e protegida. Ser destratada por insegurança de quem coordena seu trabalho. Aguenta firme.

Aceitar o amor violento da família, é pro seu bem. Qualquer coisa que façam, que não tenha justificativa, que te doa, é algo que precisa ser tolerado porque eles gostam de você, não fazem por mal.

A amizade invasiva, que quer fazer da sua vida um laboratório, esse é um tipo de amor também, tem que lidar com o desconforto profundo de se sentir desajustada, inadequada, porque está nos relacionamentos errados, porque não sabe cuidar direito do seu filho. Reclamar é sempre pior, todo mundo é assim.

Não tem mais EU depois de tudo isso, só um coração despedaçado. Mas esse é o normal. Abandonar a si mesmo é o que todos querem de ti. 

Tem que ter autocuidado? Tem. Mas esse ser quebrado é responsabilidade de um mundo inteiro desajustado e é preciso um mundo inteiro para que essa dor seja acolhida. Gritar até ser ouvida. Até, talvez, enlouquecer de vez. Silêncio, nunca mais.

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