Um colinho
Minha avó tinha umas intimidades comigo que descobri recentemente que eram só comigo. Mês que vem completa cinco anos que ela se foi. Ela, que teve uma longa vida bem vivida, em que conseguiu repensar suas certezas muitas vezes, foi meu maior apoio em momentos de abandono e loucura total da vida adulta. Por muito tempo, foi nela que encontrei o único colo possível.
Mas ela tinha centenas de netos, bisnetos, tetranetos e eu nunca me achei nada além de mais uma. Morreu com 102 anos e eu chorei muito sua perda, mas consciente de que ela tirou o melhor que pode da sua vida.
Bem, sobre as intimidades. Ela me confidenciava coisas que pensei que falasse com mais gente, mas não. Entre outras coisas, ela me dava refugos, coisas que ela ganhava e não gostava, mas achava que eu ia gostar. Uma delas foi uma boneca negra, muito fofa, que ela achou que eu ia gostar exatamente por ser "pretinha". Tá, soou meio racista, e foi mesmo. Mas ela conseguiu rever seu racismo em diversas situações e refletindo sozinha, sem ativismo, sem ler, já que era analfabeta, e, no que importava, se levantou contra o racismo em mais de uma ocasião. Só que não com essa boneca.
Depois de anos, lembrei de uma colcha de retalhos que ela me deu. Ela achou uma coisa horrorosa, desgrenhada. Não lembro quem fez ou quem deu para ela. Mas é mesmo uma colcha toda torta. as costuras todas aparentes na parte de trás, num zigue-zague que faz com que o pano desfie, em alguns pontos a costura começou a soltar, porque mal feita. "Toma, minha filha, quer essa colcha?". Eu quis, achei bonita dobradinha.
Deu uma saudade imensa do colo da avó, que agora só existe na lembrança, e eu pensei na colcha. Decidi forrar o sofá com ela. Agora o sofá é o meu colinho.
Mas ela tinha centenas de netos, bisnetos, tetranetos e eu nunca me achei nada além de mais uma. Morreu com 102 anos e eu chorei muito sua perda, mas consciente de que ela tirou o melhor que pode da sua vida.
Bem, sobre as intimidades. Ela me confidenciava coisas que pensei que falasse com mais gente, mas não. Entre outras coisas, ela me dava refugos, coisas que ela ganhava e não gostava, mas achava que eu ia gostar. Uma delas foi uma boneca negra, muito fofa, que ela achou que eu ia gostar exatamente por ser "pretinha". Tá, soou meio racista, e foi mesmo. Mas ela conseguiu rever seu racismo em diversas situações e refletindo sozinha, sem ativismo, sem ler, já que era analfabeta, e, no que importava, se levantou contra o racismo em mais de uma ocasião. Só que não com essa boneca.
Depois de anos, lembrei de uma colcha de retalhos que ela me deu. Ela achou uma coisa horrorosa, desgrenhada. Não lembro quem fez ou quem deu para ela. Mas é mesmo uma colcha toda torta. as costuras todas aparentes na parte de trás, num zigue-zague que faz com que o pano desfie, em alguns pontos a costura começou a soltar, porque mal feita. "Toma, minha filha, quer essa colcha?". Eu quis, achei bonita dobradinha.
Deu uma saudade imensa do colo da avó, que agora só existe na lembrança, e eu pensei na colcha. Decidi forrar o sofá com ela. Agora o sofá é o meu colinho.
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