Sonhei, mas aconteceu

Estávamos os três sentados naquela lanchonete que tinha um cardápio enorme e pedi uma taça de vinho. Era meados dos 1990 e eu pensei que hoje, no século XXI, não seria mais possível tomar uma taça de vinho com uma fatia de mousse de chocolate num lugar daqueles, como eu costumava fazer naquela lanchonete tipo árabe, que virou moda naqueles anos e tinha várias ali na Paulista.
Alguém, acho que ela, comenta do nada "olha só, nós três transamos com ele". Ele não estava lá, acho que o esperávamos, típico, a vaidade de quem coloca seus amantes sentados numa mesma mesa de uma lanchonete estranha esperando sua chegada para. Não lembro o que aconteceu depois. Mas hoje foi no sonho que aconteceu.
Então o menino, que nem era tão novo, mas era a pura inexperiência de vida, falou algo para parecer confortável naquela situação.
Eu era a primeira amante, por assim dizer, era "a namorada oficial" e fui vendo chegar um a um aqueles novos personagens que ele queria partilhar comigo. Eu tinha meus próprios personagens, naquele tempo, mas não queria partilhar com ele, eram meus e só. Essas eram situações de puro constrangimento, um estranho exercício de poder que eu queria ver onde ia chegar, me achava forte para lidar com aquilo, mesmo achando horrível, mas aquilo me corroeu por muito tempo. Ainda dói, por isso acabo revivendo em sonho.
Lembro do quão triste eu estava naqueles dias, por muitos outros motivos, achava isso algo pequeno demais diante das minhas outras dores, mas não era, foi excruciante o que senti e que se misturava com toda a minha história de abandono.
Corta.
Estou na Paulista, indo comprar um agasalho para um acampamento ou algo assim que eu ia fazer na semana seguinte. Esse dia ainda é bem nítido na memória, mas o sonho trouxe toda a atmosfera modorrenta de um dia que nem estava tão cinzento, mas dilacerou meu coração. Encontrei com ele vindo em minha direção na mesma calçada. Fazia algum tempo que não nos víamos, não éramos mais nós fazia alguns meses. Ele disse que ia em uma direção e eu disse que poderia ir também e conversaríamos depois de tanto tempo, era caminho para um dos lugares em que eu iria procurar minha nova blusa. Durante todo o percurso, ele olhava em volta preocupado se alguém conhecido nos veria juntos. Ficou muito nítido. Sua total falta de interesse em falar comigo ressaltava essa sua preocupação. Nos despedimos, fiz minha compra e fui encontrar meus amigos num bar na mesma avenida mais tarde. Chorei de soluçar a tristeza de ser maltratada daquela forma. Todos muito preocupados em me ver como nunca me viram antes. No dia seguinte, viajei, me apaixonei numa cidade linda, uma linda história de férias que me resgatou a vontade de viver.
Semanas depois ele me ligou e eu disse "nunca mais". Que assim seja.

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