Memórias têm dentes

"Sabe, memórias exigem atenção.
Porque memórias têm dentes."
Viola Davis

Uma parte de mim está morrendo. Senti isso intensamente nesses dias que antecederam essa data simbólica. Não estou triste com isso, porque sei que certos fins são necessários, mas me sinto no dever de honrar isso que morre. Minha carapaça de "está tudo bem" não é mais necessária.
Ela foi muito importante quando meu pai me pôs em contato com violência cotidianamente. Eu era abusada psicologicamente, saía para ver meus amigos e era bem humorada e alegre, simplesmente porque não aguentava viver o tempo todo sob o jugo triste em que ele me colocava. Durante anos, resisti em casa, lutei para não sofrer violência, e tentei ter uma vida normal de amenidades na rua. 
Isso foi importante para eu não desistir de tudo, da vida, mas virou uma armadilha, pois toda relação abusiva que aparecia na minha vida era assimilada e não repelida como devia. Namorados entraram nessa dinâmica  e uma vez um grupo inteiro de amigos que não me queriam por perto tiveram meu comportamento gentil por mais tempo do que deveriam ter porque eu não conseguia  me desfazer dessa minha carapaça "está tudo bem".
Rompi com minha família, rompi com amigos, com namorados e isso sempre teve ares de fuga, porque eu tinha medo do conflito, de ouvir coisas ruins e essas coisas ficarem impregnadas em mim, como as palavras horríveis que ouvi em casa desde muito cedo.
Uma mudança extrema de vida, mais uma dessas coisas que eu simplesmente não controlei, me impôs a fragilidade física e a necessidade de ajuda material. Não foi algo ruim, uma vida nova que chegou e que me impede de ser autossuficiente, pois agora não sou mais só eu no mundo. 
Baixo a guarda, deixo a frustração e o cansaço visíveis aos outros pela primeira vez. E peço ajuda, como nunca antes tive coragem. Porque também mereço esse lugar acolhedor de quem tem quem o ajude nos momentos difíceis.
E agora não mais "está tudo bem" em qualquer situação, pois o tempo dos maus-tratos acatados com um sorriso de quem não quer o confronto e fica na sua chegou ao fim. Achei que seria algo brutal e grosseiro, dessa coisa que se disfarça chamando de sinceridade, mas não, é algo tranquilo, quase delicado, pois sou uma pessoa gentil, afinal de contas. 
Sobrevivi fingindo que "está tudo bem", agora já é possível buscar estar bem de verdade. Feliz 42.

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