O mundo dos impressos independentes (e eu)

Esse ano do cavalo, que, como me disse uma amiga, vem a galope, começou com a realização de uma vontade antiga: de imprimir as minhas coisas e colocá-las no mundo de maneira analógica.

E isso veio de um jeito espontâneo e muito melhor do que poderia supor. Selos novos, com gente muito talentosa à frente e num trabalho parceiro com pessoas mais que talentosas. Já falei aqui no blog o que foi impresso e aqui pretendo fazer uma (auto?) reflexão sobre o porquê de ter demorado tanto para eu ter meus textos impressos e transformados em publicações.

Um histórico: faço a edição do blog Facada há quase nove anos, que foi fundado junto com mais duas pessoas, espaço em que divulgamos coisas nossas e de conhecidos, e eu faço uma garimpagem semanal (isso começou uns anos depois do blog no ar) de coisas de domínio público.

Eram textos, depois ilustrações, depois pinturas, vídeos e, daí, começamos a publicar quadrinhos. No meio disso tudo, eu (e os integrantes do blog) comecei a trabalhar na produção de quadrinhos independentes no DF, primeiro na produção e divulgação de uma publicação. Em pouco tempo, já estava no meio de uma viagem para a Europa, depois de descobrir um edital de intercâmbio. Na volta da viagem, começaram a pipocar publicações em BSB e tive um texto meu publicado em uma delas (não uma que tivesse trabalhado na produção ou divulgação) e um trabalho gráfico publicado num zine português.

Com o passar do tempo, a cena foi se consolidando e mais e mais publicações saindo. Eu continuei nos bastidores, na divulgação e no auxílio em redes sociais e na montagem de blogs. Meus textos, os trabalhos autorais, por assim dizer, continuaram saindo apenas no blog e permanceram assim até esse mês.

É interessante como ficamos no piloto automático, reproduzindo padrões de relacionamento, não importa nosso ativismo pessoal, o que acreditamos, sempre escorregamos e assumimos os papéis que a sociedade diz que temos. Sabe a história do "atrás de um grande homem tem uma grande mulher"? Não é que faz pouquíssimo tempo que me dei conta que esses selos independentes todos, com os quais trabalhei anos a fio, não possuem uma única publicação exclusivamente feminina?

Ah, vão dizer que as mulheres não têm interesse, não têm material, ou material de qualidade. Sério mesmo, nenhuma? E eu, que falo tanto sobre o protagonismo feminino, fui tragada com a naturalização desse comportamento.

Um exemplo do que me fez cair a ficha: um conhecido me disse que o editor de um dos selos ofereceu espaço para ele publicar algo que quisesse, quando quisesse, mesmo sem ele ter nada pronto. Um tempo depois (numa ação não relacionada, só associei bem mais tarde), eu perguntei a esse mesmo editor se existia a possibilidade de se publicar um material meu, que já estava pronto, só precisaria estudar o formato, e eu nunca recebi uma resposta. Pode ser que meu trabalho não valha à pena mesmo, mas será que é só isso (já que antes um trabalho inexistente já tinha garantia de publicação)?

Alerta antirecalque!


Mais uma coisa que veio à tona, foram poucas, praticamente nenhuma, às vezes em que vi meu nome associado à coordenação do blog, algo que não me incomodaria de forma alguma se ele não fosse tratado por uns tantos como o blog "de fulaninho", um dos rapazes que o fundaram comigo, mesmo sendo eu a administrá-lo em toda a sua existência (inclusive na alteração de templates e etc).

Outro fato interessante foi ver uma das meninas intimamente ligada a uma das editoras lançar seu próprio selo para publicar suas coisas.

Não estou dizendo que isso tudo acontece conscientemente (quero crer que não) e que as meninas não são incluídas como iguais na coisa toda por decisão e linha editorial, mas é muito clara para mim a diferença no tratamento e na aceitação dos trabalhos. Não por acaso me sinto cada vez mais desmotivada a ir nos eventos de lançamento, agora sei disso conscientemente, pois ali nunca surgirá um espaço para eu me colocar como uma igual, é um espaço dos rapazes.

O interessante é eu me dar conta disso justamente quando minhas coisas são publicadas. E o foram também por pessoas que nem conheço pessoalmente, que avaliaram meu material em menos de uma semana e o acharam digno de fazer parte do conjunto do seu trabalho, além de me divulgarem como um dos nomes que faz parte da empreitada com isonomia com os outros autores (eu, uma autora tratada como tal por uma editora). Isso pode querer dizer que meu trabalho é interessante, né?



Então é isso, se os espaços não se abrem, abrimos espaço. Eu demorei para ter consciência do peso dessa história toda no meu trabalho, imagino que os envolvidos nem se dão conta, mas é algo concreto que me limitou por um tempo. Não mais.

Comentários

NÃO BASTA disse…
Homens protagonizam demais essa cena underground. Mulher é fetiche, cenário ou amuleto. Uma puta de uma estupidez e, francamente, pobreza de espírito.

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