Sofia

Sofia é uma das pessoas que mais gostei (gosto) na vida. Alguém que esteve presente em boa parte dos melhores momentos que passei até hoje. Uma pessoa apaixonante, daquelas que encanta todo mundo que conhece e acaba virando a grande atração por onde passa. Linda.

Por aquelas reviravoltas da vida, a gente acabou se afastando. Uma coisa difícil, quando se gosta de alguém assim, mas quando as vidas tomam caminhos diferentes, é inevitável que aconteça.

Ela era amante da vida, quando a conheci, entusiasmada com tudo, com vontade de engolir o mundo. Hoje não, ela tem falado em morte com frequência, algo que me destrói por dentro.

Lembrei da sua mãe, dona Paulínea, alguém que desistiu de viver muito cedo. Que colocou a culpa no mundo de todas as suas frustrações. Ela enfiou na cabeça que queria realizar um amor impossível e desistiu da enormidade de possibilidades que o mundo oferece e responsabilizou esse mesmo mundo absolutamente diverso pelos males que vivia.

Um belo dia, dona Paulínea decidiu morrer. Acho que ela nunca entendeu exatamente o que isso significava, mas investiu todas as suas forças nesse propósito até que todas elas se exauriram e atingiu seu objetivo, depois de cinco angustos anos, quando, enfim, morreu.

Ontem tive um sonho agourento com Sofia: estávamos andando numa rua cinzenta e erma, perto do que parecia um galpão abandonado. Andávamos lado a lado e entramos num prédio que tinha um corredor parecido com o de hospital público. Dei uns dois passos à frente para olhar alguma coisa e quando me virei, assustada com um estrondo, percebi que o prédio tinha desabado atrás de mim. Não conseguia mais ver Sofia e comecei a gritar pelo seu nome desesperadamente no meio da poeira que subiu do entulho que caiu no chão. Quando a poeira baixou vi do outro lado da rua a Morte andando tranquilamente, toda de preto, quase flutuando pela calçada, olhando para mim com aquele olhar de “está consumado”.

Sofia desistiu. Ela me disse que o importante é “curtir” desesperadamente e a morte é uma consequência boba, pois é melhor ter uma vida curta do que ser careta.

Eu estava com dona Paulínea no hospital na hora que o médico disse que ela teria que ficar internada e que suas chances de sobreviver eram mínimas. Ela olhou para mim e disse: “Roberta, não me deixe aqui”. E seu olhar era de pânico, porque só naquele momento ela entendeu que estava morrendo e que aquilo era de verdade. E eu sei que você, Sofia, vai sentir o mesmo que ela quando essa hora chegar para você.

E você, Sofia, lembra o que sentiu sentada ao lado da sua mãe no seu leito de morte? Isso será o que eu sentirei por você.

Comentários

Postagens mais visitadas