Post aleatório

E as palavras chaves destas últimas semanas em Brasília têm sido: cigarra, chuva, calor, eleição e superbactéria.

Parece que Brasília está virando campo fértil para doenças assustadoras. Para quem não se lembra, não faz muito tempo que houve um surto de hantavirose. Fora isso, o rotavírus também é bem comum, principalmente na seca. Agora esta chamada superbactéria, "que está apenas nos hospitais".

Num programa de TV ontem, o repórter lia um email de um espectador que culpava essas contaminações nos hospitais ao fato de médicos adorarem andar de jaleco pela rua. Veja bem, jaleco foi feito para proteger os pacientes da contaminação presente na roupa do médico, não o contrário. Mas de que outra forma o cara seria tratado de doutor na rua? Minha sugestão é que tenham um jaleco extra, para usar só no hospital. Que tal?

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Passamos o inferno com a seca deste ano, que ninguém aguentava mais. Mas minha alergia ainda vai sofrer por um tempo, porque é no comecinho da chuva que as plantas decidem se acasalar. Sim, o pólen é um problema imenso para o meu nariz que ainda estava frágil com as sequelas da seca. Mas é isso. Feliz 35 graus para você também.

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São inúmeros os emails semiterroristas, ou terroristas mesmo, que tenho recebido dos que apoiam o projeto da centro-esquerda e da centro-direita. Porque, convenhamos, nem os aliados conseguem muito bem ver a diferença entre os dois.
Existe um discurso muito bem elaborado da centro-esquerda sobre o bem para os mais pobres, que, na sutileza de um gesto, é a mínima diferença que vejo entre os dois projetos. O que acho bem interessante é o que os mais inflamados na defesa deste "projeto", pois alguns até conseguem enxergar seus inúmeros defeitos (aliança com os coronéis nos rincões mais pobres não pode ser um bom sinal), são os que têm uma relação cotidiana com a pobreza de tremendo desdém. Nojo de pobre não condiz com "o projeto", ou condiz?

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(update) Algumas questões andam em pauta, neste momento "sublime" do exercício da democracia (enfatizo aqui o tom irônico, se você não entendeu). Neste curto período que vivemos pós-ditadura, o voto tem sido tratado como o exercício máximo da cidadania. Mas num sistema representativo caduco, como pode ser assim? É sabido que nenhum partido mais no Brasil é representante de um grupo social específico, nas eleições tudo se define por alianças bizarras, que nem preciso citar. Neste cenário, os cidadãos votam em seus representantes nominalmente, mas quem é eleito? São eleitos os candidatos da coligação, sequer do partido do candidato em que você votou, numa conta difícil de entender, chamada quociente eleitoral.
De acordo com o Diap, em estudo divulgado esta semana, apenas 35 dos 513 deputados foram eleitos com os próprios votos, o resto veio na conta do quociente eleitoral. Então corre o risco de você ter votado num cara do PT e ter elegido um do PR, ou do PSDB e ter eleito um do DEM, se preferir. Só isto já basta para deixar em descrédito o atual modelo representativo.
Lendo um pouco de teoria política, dei de cara com a informação de que a ideia de democracia representantiva tem pouco mais de duzentos anos, com boa parte de teóricos questionando este modelo até o início do século XX. De repente, parece que falar em democracia subentende imediatamente a representação.
Rousseau, um dos primeiros teóricos, e ainda referência, do regime republicano defendia veementemente o que chamava de democracia direta, com os cidadãos agindo como legisladores. Para ele, alienado é o que cede (aliena) sua voz a um representante: "A soberania é o exercício da vontade geral e é inalienável, “...e ainda que seja soberano, que é o ser coletivo, não pode representar-se senão por si mesmo, podendo o poder ser transmitido, porém, não a vontade”. (Idem:29). Alienar significa dar ou vender. Nenhuma pessoa se dá ou se entrega gratuitamente. Só um louco faria isso e loucura não constitui direito: “Renunciar à liberdade é renunciar à qualidade de homem” (Idem: 15). Extraído daqui.
Eu poderia fazer uma livre interpretação, com o risco de ser execrada, e dizer que alienado é o que aliena, o que tranfere sua represenatação, o que vota. Pode ser bastante simplificada esta leitura, mas eu não acho que o voto nem chega perto de ser o maior ato da cidadania. É preciso fazer muito mais, é preciso não fazer esqueminhas para conseguir liberação de fundos culturais, é preciso não criar organizaçções para proteger apenas seu próprio umbigo e esquecer o bem comum. É preciso ser decente no cotidiano e não esperar que a autoridade constituída te proíba de dirigir bêbado, ou de bater na mulher, com a desculpa de que "não se sabia" que isso é um mal em si.
É difícil chegar a este estado social, com todos os vícios que esperimentamos no mundo. Mas eu não quero apenas o que "dá para ser feito", eu quero mais, mesmo que não seja hoje. Foi por isso que decidi estudar filosofia, é para isso que a arte existe. Todo mundo é um pouco artista e filósofo, então porque não ir além do que está estabelecido e tentar pensar em algo novo? Porque já chegamos no máximo de bem estar social que este modelo pode oferecer e a coisa está muito ruim ainda.
E não me chame de pessimista, porque, para mim, pessimismo é achar que esta é a única maneira possível de viver. Eu acredito em mais.

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E as cigarras mandam um recado: cri cri cri cri cri cri cri cri

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